A COP 21 e a descarbonização total da economia no fim do século XXI
17 Fev 2016

O fim dos combustíveis fósseis? Para questionar o fim dos combustíveis fósseis anunciado no Acordo de Paris e as suas implicações para as empresas e para a economia mundial, o BCSD convidou António Alvarenga, fundador e diretor executivo da ALVA R&C e professor no Instituto Superior de Economia e Gestão (ISEG) e no Instituto Superior Técnico (IST), para um evento exclusivo para membros.

António Alvarenga começou por explicar que as mudanças na economia portuguesa e na economia europeia nos últimos 10 a 15 anos foram excecionais. “O mundo mudou radicalmente. Tão radicalmente que nas reações às alterações climáticas, a necessidade de alteração do paradigma energético é quase consensual.” Segundo o especialista em prospetiva e estratégia, o Acordo de Paris vem obrigar as empresas e os governos a antecipar o futuro, de forma a conseguirem agilizar a tomada de decisões e a implementar medidas de combate às alterações climáticas.

Ao tentar canalizar as decisões de investimento para as renováveis em detrimento dos combustíveis fósseis, o Acordo de Paris é, sem dúvida, um sinal forte para o setor financeiro global. No entanto, apesar de vinculativo, o acordo não estabelece metas nacionais. “Acredito que vão ser produzidos muitos mais relatórios e que, com eles, haverá mais transparência, mas a minha grande dúvida é: como vai o Acordo de Paris funcionar em tempos difíceis? A ideia de que “estamos juntos nisto” correu razoavelmente bem durante a COP 21, mas vai continuar a funcionar?”, questionou António Alvarenga.

Todas as conclusões do Acordo de Paris implicam que, tanto empresas como governos, tomem decisões sobre o futuro”, defendeu António Alvarenga. O fim dos combustíveis fósseis proclamado pelo Acordo de Paris, que não é bem o fim, mas a ambição de reduzir a dependência deste tipo de combustíveis e a aposta nas renováveis, é o mesmo que dizer que há que pôr término aos modelos económicos assentes na exploração comercial intensiva das acumulações de combustíveis fósseis – petróleo, gás natural e carvão. Toda a sociedade depende dos combustíveis fósseis e não é fácil alienar esta dependência.

Mas afinal porque é tão difícil mudar?”, questionou Alvarenga para responder logo de seguida: “porque é um novo modelo que vem alterar um outro que funcionou muito bem no pós-guerra e que foi a base da construção da classe média ocidental”. O especialista em prospetiva e estratégia defendeu que já foi produzida muita informação sobre o futuro, que empresas e governos devem analisar e usar para tomar decisões. No entanto deixa a ressalva: o mundo continua a mudar de forma muito célere e o conhecimento produzido é sempre provisório.

Uma das saídas para trabalhar a aceleração e a incerteza é a ideia de sensibilidade estratégica. Saber para onde olhar, saber o que analisar, perceber o que significa a mudança para a minha organização, para a minha região, para o meu país. A sensibilidade estratégica origina agilidade estratégica – perceber a mudança e ser capaz de agir com base nessa perceção – e, consequentemente, melhor preparação para contornar as barreiras e maior foco na identificação de oportunidades”, afirmou Alvarenga. Nesta matéria, o especialista defendeu que é absolutamente necessário atuar sobre os atuais critérios de decisão para que passem a considerar o longo prazo.

O exercício que Alvarenga propôs aos participantes do evento foi a criação de critérios intermédios como forma de transformar o curto/médio prazo no longo prazo. Critérios ligados, por exemplo, a ética (afinal, como fazer o correto?), às expetativas de rentabilidade do negócio ou investimento (que taxas utilizar para calcular o valor atual de investimentos de longo prazo?), ao fortalecimento da resiliência (das empresas, dos colaboradores e da cadeia de valor) e da reputação como objetivos centrais das estratégias organizacionais. “Tragam o futuro para o presente. Olhem para ele para decidirem melhor hoje”, foi a mensagem final de António Alvarenga.

INTERVENÇÃO ANTÓNIO ALVARENGAFOTOGRAFIAS DO EVENTO

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