A cor do dinheiro
19 Out 2020

Segundo o WBCSD, a nível mundial, os bancos gerem ativos no valor de € 119 biliões (i.e., 119 milhões de milhão de euros) e os investidores institucionais € 85 biliões. Já os mercados de capitais de ações e obrigações mobilizam mais de € 85 biliões e € 64 biliões, respetivamente. Tudo somado, são mais de € 353 biliões, ou seja, quase 5 vezes mais do que o PIB mundial – que, em 2019, ascendeu a € 88 biliões. Para se ter uma noção de escala, só o maior banco do mundo (o UBS) gere ativos no valor de € 2 biliões e o maior fundo de investimento do mundo (a BlackRock) gere ativos no valor de quase € 6 biliões, ou seja, apenas duas instituições financeiras gerem ativos que valem mais de metade do PIB da UE27, que ascendeu a € 14 biliões em 2019.

Naturalmente, o valor dos investimentos cumprindo critérios de sustentabilidade é apenas uma pequena parcela destes montantes, mas a tendência é para crescer aceleradamente ao longo dos próximos anos. Segundo a Global Impact Investing Network (GIIN), o investimento de impacto deverá ascender a mais de € 600 mil milhões de euros, sendo que em 2012 o valor desse mercado era quase 100 vezes inferior, valia menos de € 7 mil milhões. Ou seja, há cada vez mais investidores a querer investir segundo critérios que não sejam meramente o do retorno económico, isto é, cumprindo critérios ESG (EnvironmentalSocial e Governance), criando valor que é partilhado, que não é monetizável nem apropriável pelos acionistas.

Não será de estranhar este apetite dos investidores por investimentos sustentáveis, já que estes têm provado ser mais resilientes, ou seja, terem melhor capacidade para gerir risco, resistir a crises e ser competitivos no longo prazo, já vão de encontro às crescentes preferências nesse sentido dos diversos stakeholders das empresas, sobretudo, dos investidores, reguladores, clientes e colaboradores. Diversos estudos, publicados este ano, apresentam evidências inequívocas do melhor desempenho das empresas cotadas que são mais sustentáveis – isto é, que melhor integram aspetos sociais e ambientais nos seus modelos de negócio e cadeias de valor – durante o período de confinamento provocado pela COVID-19, isto é, esses títulos registaram quedas inferiores face aos outros. Do WBCSD, à McKinsey e ao The New York Times, todos os estudos publicados apontam nesse sentido – é o “ESG premium”, como lhe chama a Mckinsey.

Mas a estes valores de investimento privado falta acrescentar o investimento público a nível mundial. Ilustrando o seu potencial, só este ano as 17 maiores economias do mundo já anunciaram pacotes de apoio à economia verde no valor de € 3 biliões e a emissão de obrigações verdes a nível mundial deverá ascender a € 300 mil milhões. Na Europa, a França anunciou recentemente um pacote de € 30 mil milhões para acelerar a transição ecológica e a Alemanha anunciou que este ano irá emitir € 11 mil milhões em obrigações verdes.

As obrigações verdes, mecanismo que destacamos na primeira edição da newsletter Financiar a Sustentabilidade sobre os mecanismos e oportunidades de financiamento da sustentabilidade, serão uma das fontes a que a UE irá recorrer para financiar uma parte do Next Generation EU, o envelope financeiro extraordinário de € 750 mil milhões, aprovado recentemente para ajudar os países da UE a implementar os respetivos Planos de Recuperação e Resiliência devido à crise COVID-19 durante o período 2021-2026.

Mas, no contexto da União Europeia, ao Next Generation EU há que somar o próximo Programa Financeiro Plurianual 2021-2027, cujo orçamento é de € 1,85 biliões. No contexto da UE, será de realçar o envelope financeiro do Pacto Ecológico Europeu, cujo valor é superior a € 1 bilião. Mas a Comissão Europeia já deixou claro que o investimento na transição para a sustentabilidade será uma prioridade em todos os seus envelopes financeiros, ou seja, de agora a adoção de critérios ESG deverá nortear todos os investimentos e programas de financiamentos dos países da UE.

Segundo as Nações Unidas, seria necessário um investimento anual de € 3,3 biliões entre 2015 e 2030 para atingirmos os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável em 2030, ou seja, quase € 50 biliões no total. É verdade que os valores a ser investidos atualmente, quer a nível público, quer privado, adotando critérios ESG ainda não atingem esta ordem de montantes, mas estão cada vez mais perto e, sobretudo, a crescer de ano para ano.

A nova newsletter do BCSD Portugal, em parceria com a EY e com a PLMJ, irá acompanhar a evolução das diversas fontes de financiamento disponíveis para financiar a transição para a sustentabilidade nas empresas – subsídios, equity e dívida –, a nível nacional e europeu, de modo a que os membros do BCSDC Portugal possam ter acesso em primeira mão a uma seleção diversificada de oportunidades de financiamento dos seus investimento sustentáveis, isto é, que adotem critérios ESG. Estamos certos de que traremos novidades com cada vez maior escala e empenho na transição para a sustentabilidade ao longo dos próximos anos.

Neste primeiro número da newsletter Financiar a Sustentabilidade, demos particular atenção ao tema das obrigações verdes pelo seu potencial de apoiar a transição para um modelo de desenvolvimento sustentável. Algo que já está acontecer, inclusive em Portugal, já que um conjunto de empresas portuguesas já recorreram a este mecanismo de financiamento. Aguarda-se, agora, que a emissão de dívida pública em Portugal siga o exemplo do setor privado, dado que vários países da UE já o adotaram. Num futuro próximo, as obrigações verdes deverão mesmo tornar-se o ativo de referência para cálculo da taxa de juro sem risco.

No que depender de nós, desta newsletter, a cor do dinheiro será cada vez mais verde. Boa leitura!

João Wengorovius Meneses, Secretário-Geral do BCSD Portugal

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