“A instalação criativa e circular do futuro”
16 Abr 2020

Perante a pandemia de Covid-19, o mundo questiona os seus sistemas de saúde, mas sobretudo os equilíbrios que têm de ser respeitados para que a Humanidade possa viver com qualidade de vida e prosperar. As mortes provocadas todos os anos, por exemplo, devido à poluição ou à fome são em número muito superior às de Covid-19 (até agora), porém não têm suscitado o mesmo grau de urgência na abordagem, ainda que sejam tudo fenómenos relacionados.

A UE pretende assumir a liderança mundial ao nível da sustentabilidade. Com o novo Pacto Ecológico Europeu, a sustentabilidade deverá passar a integrar todas as políticas e setores.
A ideia é acelerar uma transição rápida para um modelo de desenvolvimento sustentável, que seja socialmente justa e em equilíbrio com os ecossistemas. O Pacto Ecológico Europeu deverá ser mesmo o principal eixo de crescimento e geração de emprego da UE, devendo concentrar ¼ do seu esforço de investimento até 2027.
Atingir a neutralidade carbónica até 2050 é uma das metas mais emblemáticas já assumidas. Para que tal seja possível, será necessário acelerar a transição para uma economia circular na UE. A economia europeia será tão mais competitiva quanto mais eficiente for na utilização dos recursos, beneficiando também a saúde e o bem-estar dos cidadãos.
Segundo um artigo recente da National Geographic (“O Fim do Lixo”, março 2020), atualmente, o metabolismo da Humanidade obriga a transformar todos os anos cerca de cem mil milhões de toneladas de matérias-primas. A grande maioria destas matérias-primas, introduzidas na economia como fatores de produção, são recursos extraídos da Terra: quer finitos (minerais, minérios e combustíveis fósseis), quer renováveis (biomassa). É a partir da sua transformação que se obtêm os bens de consumo.
Porém, o processo é muito pouco eficiente: cerca de 66% das matérias-primas que fluem através da economia são emitidas sob a forma de poluição (por exemplo, carbono dos combustíveis fósseis), ou descartadas sob a forma de resíduos; menos de 25% dá origem a bens duradouros (edifícios, infraestruturas e automóveis); e menos de 10% volta a entrar na economia.

Há cada vez mais relatórios científicos a alertar para o aumento da temperatura global, para os milhões de toneladas de lixo de plástico à deriva nos rios e oceanos, para os nitratos e fosfatos que escorrem dos campos adubados, para o facto de um terço da totalidade dos alimentos apodrecer, para a desflorestação que continua a um ritmo alucinante, para a escassez crescente de água potável, ou para que apenas um quinto da totalidade dos resíduos eletrónicos seja reciclada (sendo que qualquer telemóvel ou um computador incorpora capital natural não renovável nos seus diversos componentes, ou seja, há um número limite de telemóveis e computadores que poderemos produzir). Em resumo, o sistema ainda é muito pouco circular.

Como refere o artigo mencionado da National Geographic, a “lacuna da circularidade começou com a utilização de combustíveis fósseis no século XVIII. Até então, a maior parte dos bens produzidos pelos seres humanos, eram obtidos através da força muscular, “humana e animal”. Ora, o recurso à energia física limitava a pegada ecológica que tínhamos sobre o planeta (ainda que mantivesse uma boa parte da população na pobreza).
Com a disponibilidade de energia fóssil barata a situação alterou-se por completo. Tornou muitíssimo mais fácil a extração de matérias-primas, o seu transporte para fábricas, a sua transformação, e o posterior envio para todo o mundo.

Assim, com a Revolução Industrial o nosso bem-estar material melhorou exponencialmente, mas a fatura sobre a biosfera também. Só na segunda metade do século XX, enquanto a população mundial aumentava para o dobro, o volume de materiais em circulação na economia mais do que triplicou. E no início do século XXI a situação não parou de se agravar – por exemplo, entre 2000 e 2015, enquanto a população mundial crescia 20%, a produção de vestuário duplicou (devido ao fenómeno da fast fashion).

Para que as economias sejam circulares – desde a extração das matérias-primas, até ao fim de vida dos bens – há palavras-chave, tais como: redução do consumo e da intensidade de uso de recursos, durabilidade, reparação, reutilização e reciclagem dos bens. Os benefícios da circularidade não serão apenas para a qualidade de vida das atuais ou futuras gerações. Segundo o estudo “The Circularity Gap Report 2019”, a transição de um sistema económico linear para um sistema económico circular poderá representar uma oportunidade superior a um bilião de euros (1,8 trillion USD).

Grande parte do esforço da transição para a circularidade terá de ter origem em novos comportamentos (será esta a dimensão chave), mas também na adoção de novas tecnologias e na inovação ao longo da cadeia de valor, nomeadamente, no fim de vida dos produtos e subprodutos.

No que toca aos desafios do fim de vida, temos de amar o lixo, de assumir o princípio de que um resíduo é sempre uma matéria-prima fora do lugar. Não faltam hoje exemplos de pão duro que se transforma em cerveja artesanal, cascas de laranja em fibras naturais que dão origem a camisolas de alta costura, pneus velhos que se convertem em pisos para parques infantis, calças de ganga compostáveis, ténis feitos de bioplásticos à base de algas que sequestram carbono da atmosfera, ou águas residuais urbanas usadas para rega ou lavagem de automóveis. E a inovação ainda agora começou.
Que esta quarentena seja um tempo de construção criativa e circular do futuro. Não será fácil instalar um novo modelo de desenvolvimento sustentável – mas não temos outra opção!
Leia o texto original aqui.

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