Do motor de explosão à economia circular
16 Mar 2021

Em 1684 Thomas Savery inventou o motor de explosão, uma das invenções mais disruptivas da história da Humanidade. A Revolução Industrial que se seguiu transformou para sempre as economias, as sociedades e os estilos de vida em todo o mundo, sobretudo nos países mais desenvolvidos. O progresso económico e científico que se seguiu proporcionou níveis de bem-estar ímpares, permitiu que a esperança média de vida quase duplicasse, que o PIB per capita aumentasse quase 14 vezes, e que a população mundial aumentasse quase 700 por cento (de mil milhões de pessoas, em 1820, para quase 8 mil milhões, em 2020). Contudo, esse assinalável progresso assentou numa exploração sem precedentes dos recursos naturais da Terra e resultou em níveis insustentáveis de poluição e emissão de gases com efeito de estufa para atmosfera.

O bem-estar material proporcionado pela Revolução Industrial, ao assentar num modelo de desenvolvimento linear (i.e., assente numa lógica “take-make-waste”), estaria sempre condenado a prazo, num planeta com recursos naturais e capacidade de carga finitos. Por isso, desde que, em meados do século XX, se percebeu a irracionalidade da linearidade do nosso modelo de desenvolvimento, que se tem vindo a procurar torná-lo circular. Se não formos bem-sucedidos nessa transição, as futuras gerações terão cada vez menos qualidade de vida. No limite, é a própria sobrevivência da Humanidade que está em causa.

Qualquer modelo de desenvolvimento sustentável implicará a redução drástica do atual impacto ecológico da produção e do consumo, o que implica a transição para um modelo de economia circular. Esse esforço de transição para uma economia circular depende da adoção massiva e em larga escala dos 5 Rs da economia circular – redução, reinvenção, reutilização, reciclagem e recusa –, e de 3 desígnios-chave – qualidade, inovação e frugalidade.

A boa notícia é que se estima que a economia circular seja uma oportunidade de negócio de 4,5 biliões de dólares (USD $4.5 trillion) em 2030 (1). Mas não é apenas uma oportunidade de negócio: acima de tudo, constitui uma oportunidade única e necessária para apoiar um crescimento sustentável, regenerativo e inclusivo, sem o que será impossível fazer face à emergência climática, à perda galopante de biodiversidade e aos crescentes níveis de poluição e de assimetrias sociais.

Muitas empresas interiorizaram já o conceito de economia circular há vários anos. Porém, o desafio está na concretização de uma mudança sistémica, na implementação do conceito pelas empresas em geral. Atualmente, apenas 8,6% da economia global é circular (2), motivo pelo qual já são necessários mais de dois planetas Terra para aguentar com o modelo de desenvolvimento insustentável. Ou seja, estamos a viver a crédito das gerações futuras, já que o stock da maioria dos recursos naturais, que constituem a matéria-prima da generalidade dos bens de grande consumo, é finito.

São diversos os desafios com que as empresas se deparam na jornada para a economia circular, nomeadamente, adoção de novas tecnologias, novas soluções de design, novos materiais, e reformulação das cadeias de valor e dos seus novos modelos de negócio (por exemplo, para negócios mais assentes no usufruto e menos na posse). É por isso que uma das palavras-chave para a transição para a circularidade é inovação.

Porém, talvez o primeiro passo para que as empresas iniciem a sua jornada para a economia circular seja conhecerem o seu desempenho em matéria de circularidade, através da adoção e monitorização de indicadores-chave adequados ao seu setor. Só assim será possível: definirem uma baseline, estabelecer metas e monitorizar o progresso na sua transição para a circularidade; identificar oportunidades circulares e riscos lineares; responder a requisitos de clientes e de investidores; e desenvolver novos negócios.

Para ajudar neste processo, o WBCSD (World Business Council for Sustainable Development) e 30 empresas-membro desenvolveram os Indicadores de Transição Circular (CTI – Circular Transition Indicators Tool), que ajudam a responder a perguntas como: qual o grau de circularidade da minha empresa? como definimos metas para melhoria? como monitorizamos as melhorias resultantes das nossas atividades circulares?

A CTI Tool (3) é uma ferramenta simples, transversal a todos os setores e cadeias de valor, abrangente e flexível, complementar aos esforços desenvolvidos pelas empresas no domínio da sustentabilidade e agnóstica no que respeita a materiais, setores ou tecnologias, para que qualquer empresa possa avaliar o seu desempenho circular. A versão que o WBCSD acaba de lançar é já uma versão 2.0, com indicadores que a versão 1.0 não continha, nomeadamente, circularidade da água, desempenho financeiro associado ao desempenho circular e orientações para a bioeconomia.

Na sequência de uma colaboração entre o WBCSD e o BCSD Portugal, esta metodologia é agora lançada em Português, a par de três casos de estudo de empresas do Grupo de Trabalho de Economia Circular do BCSD Portugal, que participaram no processo piloto de aplicação da ferramenta, contribuindo para o seu desenvolvimento e melhoria, e partilha de experiências.

A urgência da transição para uma economia circular, de forma que as empresas adotem modelos de negócio circulares inovadores e colaborativos que aumentem a longevidade e resiliência dos seus modelos de negócio e cadeias de valor, nunca foi tão evidente. Os modelos de negócio lineares podem ser rentáveis a curto prazo, mas, com o passar do tempo, expõem as empresas a riscos de mercado, operacionais, regulatórios e de negócio. Através de modelos de negócio circulares, as empresas podem acelerar o seu crescimento, melhorar a sua competitividade e mitigar diversos tipos de riscos. É por isso que este é um dos principais desafios da década 2020-2030 e do European Green Deal.

1 www.wbcsd.org/Programs/Circular-Economy/Factor-10
2 Circle Economy (2020). Circularity Gap Report 2020. Retirado de: https://www.circularity-gap.world/2020
3 https://ctitool.com/

Leia o artigo no jornal Capital Verde by ECO

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