Entrevista do BCSD Portugal a João Roquette, CEO do Esporão
28 Jun 2019

Em entrevista, João Roquette, CEO do Esporão, explica como e porque é que a empresa está a reforçar a comunicação do sentido de fazer Mais. Devagar. Nomeadamente, seguindo o ritmo da natureza na produção de vinhos e azeites.

O Esporão lançou a campanha ‘Mais. Devagar.’ esta primavera. Porquê o foco na desaceleração? Faz-se sentir internamente, na maneira como a empresa opera?
O mundo tem vindo a acelerar desde a revolução industrial. Muito de bom foi conquistado pela sociedade mas estamos a sentir o impacto dos excessos de velocidade, crescimento, consumo, informação, uso de recursos, etc.  Sabendo que a vida e a felicidade dificilmente serão uma corrida contra o tempo e pelo crescimento económico, construir tempo para abrandar, olhar à volta e viver em vez de existir, parece-nos algo com potencial principalmente numa empresa que vive ao ritmo da natureza. Internamente isso significou também uma reflexam sobre a nossa produtividade e criatividade. Estamos  a trabalhar um projecto que questiona as 40h de trabalho por semana.

De que forma a sustentabilidade e o slow living são elementos estratégicos para a competitividade do Esporão e de que forma se reflete nos vossos objetivos atividades futuras?
O Esporão tem feito caminho para merecer o seu espaço na sociedade. Somos hoje um dos maiores proprietários de vinha biológica do mundo, medimos e tentamos reduzir ao máximo a utilização de recursos e ter uma relação justa com as pessoas dentro e fora da empresa. Esta atitude e percurso cada vez mais nos identifica e distingue enquanto projecto. A introdução do tema “Mais Devagar” vem na continuação deste percurso, propondo uma reflexão sobre a vida actual, as prioridades, o excesso onde se inclui o consumo. Fazê-lo sabendo que produzimos e vendemos muitas garrafas de vinho, azeite e cerveja. Acreditamos que o comportamento de compra das pessoas está a orientar-se para consumir menos mas melhor.

Afinal de contas, o que significa para si slow living? Trata-se de um lifestyle que um grupo cada vez maior de pessoas procura? Como se relaciona com a sustentabilidade?
O Esporão não faz parte de nenhum movimento especifico. “Mais Devagar” é uma ideia, uma causa, um desafio que fazemos a nós próprios e propomos a quem esteja interessado. Pelos resultados que estamos a ver, parece ser relevante para muita gente. O tempo parece hoje significar mais do que dinheiro. Achámos relevante fazê-lo pois relaciona-se directamente com os produtos da natureza, com a cultura de Portugal, das suas regiões específicas e do Esporão.

Considera o slow living uma tendência a que todas as empresas devem estar atentas e no sentido da qual deverão inovar não só internamente mas também em termos de oferta e comunicação?
As empresas devem sobretudo tentar ser coerentes e verdadeiras com aquilo que acreditam. Se não forem, as pessoas não acreditam nelas. Do que adianta ter um departamento, agenda e investimentos em iniciativas de sustentabilidade e manter na base modelos de negócio antigos e prejudiciais à sociedade? Parece-me que o mundo corporativo é responsável por muitos dos desafios que temos para resolver enquanto humanidade, sendo o maior de todos as alterações climáticas. O aumento da demografia e crescimento económico, o apelo constante ao consumo e o desequilíbrio na utilização de recursos, levaram-nos até aqui. Se foram as empresas, com a validação dos políticos, que criámos este problema, teremos de ser nós a resolvê-lo. Estou convencido que as empresas que genuinamente trabalharem a favor das pessoas vão ser recompensadas no longo prazo.

Como consumidor, onde considera que há espaço para melhorias ao nível da sustentabilidade e da desaceleração?
Na coragem e esforço para as empresas mudarem, abdicarem de algo a favor de um interesse maior. Foco na inovação, na humanização e verdade na comunicação.

Quais as principais tendências de inovação ao nível das operações e dos produtos, no domínio da sustentabilidade, no setor dos vinhos e azeites? 
Claramente a produção biológica. Está por demais provado que não podemos a destruir os nossos solos e a contaminar a água com produtos químicos, pondo a saúde das pessoas em risco em prole de custos de produção mais baixos no curto prazo. Está também cada vez mais clara a diferença de qualidade (cheiro, sabor, intensidade, longevidade) nos produtos biológicos. Os mais reconhecidos e caros vinhos do mundo são feitos em produção biológica há décadas.

De que forma os recentes acontecimentos ambientais em Portugal – por exemplo, aumento das temperaturas, seca, fogos florestais, novas leis sobre a limpeza das florestas – têm afetado a maneira como a vossa empresa opera a nível nacional? Como tem a empresa integrado os riscos climáticos?
As alterações climáticas chegaram. Na nossa empresa são uma realidade. No ano passado (2018), em dois dias de calor extremo em agosto perdemos cerca de 20% das uvas que tínhamos na vinha, representando um impacto directo de cerca de 1.0M€. Este ano (2019) choveu metade da média dos últimos 20 anos. Os poços estão secos e a secar, a nossa represa de água está a 25% da capacidade, o que representa o valor mais baixo desde que foi cheia. A barragem do Alqueva está a baixar a olhos vistos com a falta de chuva e o regadio de culturas super-intensivas novas para o Alentejo como o amendoal, o tomate, o abacate, etc. No Esporão, a agricultura biológica permite que os solos estejam de boa saúde e tenham a capacidade de receber e armazenar água, mitigando dentro do possível a falta de água. Temos vindo a estudar as 188 castas do nosso campo ampelográfico verificando o seu comportamento ao stress hídrico, calor excessivo, pragas e doenças, e fazendo algumas mudanças nas novas plantações. Na ultima década temos investindo na compra de terreno na Serra de São Mamede, em Portalegre, que está na parte mais fria e chuvosa do Alentejo.Temos constantemente desmaterializado as nossas embalagens, aumentando a produção de energia com sub-produtos da nossa actividade e energia solar.

Para além de ser um risco, a sustentabilidade também pode ser uma oportunidade para as empresas. Aliás, a par da digitalização, talvez seja a tendência que mais irá impactar os negócios no século XXI. Concorda? Como olha o Esporão para a sustentabilidade na perspetiva da oportunidade? Em que se traduz exatamente?
A palavra sustentável, associada a uma empresa, indica a capacidade dela perdurar no tempo. Isto leva-me a pensar que se trata mais de uma questão de sobrevivência do que de oportunidade. A diferença no crescimento das vendas dos produtos biológicos do Esporão versus os não biológicos é notória, com vantagem para os biológicos. O processo de conversão demorou-nos mais de 10 anos e ficará terminado este ano com a certificação da totalidade da nossa vinha e olival. Sendo a única empresa de vinhos portuguesa com este trabalho feito, estaremos numa situação competitiva privilegiada num futuro próximo. Pelo menos espero que assim seja…

Saiba mais sobre a Herdade do Esporão

Partilhe este artigo

Links relacionados

+ Notícias

BCSD Portugal lança Guia do CEO para a Bioeconomia Circular

BCSD Portugal lança Guia do CEO para a Bioeconomia Circular

O BCSD Portugal lançou o Guia do CEO para a Bioeconomia Circular, que visa dar aos líderes empresariais uma compreensão do conceito e das oportunidades que a Bioeconomia Circular tem para oferecer ao setor privado. O reconhecimento de que o capital natural é finito obriga hoje as empresas a uma enorme e rápida adaptação das suas atividades e operação da cadeia de valor, no sentido de incorporar os princípios da Bioeconomia Circular.

read more
BCSD Portugal junta-se à iniciativa mundial Call on Carbon

BCSD Portugal junta-se à iniciativa mundial Call on Carbon

Foi lançada hoje a Call on Carbon, uma iniciativa global conjunta Climate Leadership Coalition, Haga Initiative e Skift Business Climate Leaders da qual o BCSD Portugal é parceiro e signatário, a par do Corporate Leaders Group Europe e da CER – Sustainable Business Network, com o objetivo de aumentar os investimentos climáticos e a tarifação do carbono.

read more

Leia as notícias online. Por um desenvolvimento sustentável.