Fundos de investimento responsável: utopia ou realidade
15 Abr 2016

Artigo de opinião de Ana Marreiros, Communication and Community Manager do BCSD, publicado no VER

O país está a mudar. A Caixagest, gestora de ativos da CGD, lançou na semana passada o primeiro fundo socialmente responsável português que privilegia a aposta em ações e obrigações europeias que seguem um conjunto de critérios ambientais, sociais e de governance e que tem como objetivo atingir os 30 milhões de euros de ativos até ao final do ano. Na mesma semana, decorreram em Lisboa dois eventos dedicados aos fundos de investimento responsável ou, em inglês, sustainable and responsible investment.

A questão que se coloca é: porquê agora? Porque os investidores começam a procurar investir em empresas que sejam realmente sustentáveis e com visão de longo prazo. No rescaldo da crise financeira, depois de assistirmos ao colapso de grandes empresas e depois de ficar claro que as alterações climáticas têm impacto direto no mundo dos negócios, os investidores começam a olhar para estes investimentos com uma nova perspetiva e têm vindo a questionar as empresas sobre informação que antes não era reportada ao nível financeiro.

Estamos a falar de informação habitualmente divulgada, de forma isolada, nos relatórios de sustentabilidade e que está erradamente desfasada do desempenho financeiro das empresas. Assuntos como os impactos ambientais, a segurança dos produtos, capital humano, eficiência no uso de recursos, inovação, biodiversidade, emissões de carbono ou direitos humanos, são alguns dos exemplos que os investidores tentam agora perceber.

Flavia Micilotta, diretora executiva do Eurosif e oradora dos eventos sobre fundos socialmente responsáveis, foi peremptória em afirmar que o conceito ainda não está totalmente consolidado. Micilotta defende que estamos no início da era dos fundos socialmente responsáveis e prefere definir estes investimentos como um movimento de resposta à seguinte pergunta: onde paira a ética na decisão dos investimentos das empresas?

A pergunta começou a ganhar força entre 1995 e 2000 nos Estados Unidos, a par com o crescimento de ações, projetos e estratégias de responsabilidade social corporativa e dos relatórios de sustentabilidade. Esta nova realidade contribuiu para modelar a forma como os consumidores, fornecedores e investidores percecionam as ações e as estratégias das empresas. Um pouco mais tarde, o movimento surge na Europa, com um novo indicador: os resultados intangíveis das empresas passaram a ganhar espaço, lado a lado com os resultados tangíveis.

Recentemente, a geração millennial chegou ao mundo do trabalho, muito mais desperta para estes assuntos do que outra qualquer geração. Estes jovens acreditam que as decisões de investimento das empresas são uma forma de expressar os valores corporativos ao nível social, político e ambiental. E vão mais longe. Acreditam que os fundos de investimento responsável são estratégicos para a necessária mudança de comportamentos de governos e empresas.

Perante estes factos, o potencial de mercado está criado, acredita Flavia Micilotta. Os fundos de investimento responsável são o caminho para a descarbonização da economia que o Acordo de Paris impõe e a oportunidade para investir em negócios emergentes como a eficiência energética, energias renováveis, gestão de resíduos, gestão de florestas ou agricultura. E são também o caminho para os investidores tomarem algumas decisões, como por exemplo, o não investimento em tabaco ou em energia nuclear.

Nos eventos em Lisboa, Micilotta demonstrou, através de vários estudos, que os fundos de investimento responsável têm desempenho semelhante ou superior aos fundos tradicionais, apresentam menor risco e apostam no longo prazo. Quando questionada sobre a melhor abordagem empresarial aos fundos de investimento responsável, Micilotta defendeu que é tudo uma questão de estratégia.

Primeiro, as empresas precisam de encontrar os argumentos racionais para perguntas como: que tipo de informação procuram os meus investidores? qual a relevância dos fundos de investimento responsável para a estratégia da minha empresa? sobre que tipo de assuntos devo reportar? Depois, começam por integrar os fundos de investimento responsável na estratégia de investimento, alinhando as suas preocupações ambientais, sociais e de governance com os objetivos financeiros dos investidores.

Se estas preocupações tiverem uma base financeira e de materialidade, os investidores institucionais vão considerá-las, de certeza, nas suas decisões. Caso não tenham, os investidores não as podem considerar apenas com base nos seus próprios valores ou opiniões.

Isabel Ucha, presidente interina da Euronext Lisbon, também interveniente nos eventos, reforçou a importância do mercado europeu de investimento responsável, explicando que em 2005 representava 1060 biliões de euros e que, em 2013, já tinha atingido 9885 biliões de euros, assumindo assim 49% do mercado mundial de investimento responsável. Isabel Ucha defendeu que as bolsas devem atuar ao nível dos índices, tendo a Euronext dois índices disponíveis: Euronext CR Indices e Euronext Low Carbon 100 Europe. O primeiro aborda as melhores práticas das empresas ao nível dos recursos humanos, direitos humanos, impacto social, impacto ambiental, governance e compromisso com o mercado. O segundo analisa as empresas com melhor desempenho na redução de emissões de carbono.

Apesar de novo para muitas empresas, o movimento dos fundos de investimento responsável não anda isolado. O tema está na linha da frente da política europeia. As recentes consultas públicas da Comissão Europeia sobre investimento a longo prazo e sustentável e relato não-financeiro são alguns dos primeiros passos para agitar as águas deste mercado. Diana Guzman, diretora do Carbon Disclosure Projet para a Europa do Sul e outra das oradoras dos eventos, alertou para a imposição legal das empresas reportarem temas ambientais, sociais, direitos humanos e de combate à corrupção das suas atividades e ao longo da sua cadeia de valor. A diretiva 2014/95/EU entra em vigor em janeiro de 2017.

Guzman defende que os investidores precisam desta informação para tomarem decisões, mas que a informação tem de ser preparada de forma percetível e útil aos stakeholders chave. Tem de ser comparável, alinhada e integrada, senão as empresas vão continuar a apresentar a informação não financeira e a financeira de forma independente.

Difícil? Complexo? Sim, muito!

Curiosamente, harmonização de linguagem e comunicação foram dois assuntos muito debatidos nos eventos que decorreram em Lisboa e que tinham como públicos-alvo, analistas, investidores institucionais, gestores de ativos, investors relations e profissionais de sustentabilidade. Relacionar a informação não financeira com o negócio da empresa é complexo, dizia-se. Explicar as opções de investimento socialmente responsável é difícil, também se disse. A sério? Discordo em absoluto.

Queremos mesmo acreditar que os consumidores, os fornecedores e os colaboradores não percebem mensagens simples como a redução do consumo de energia, a poupança monetária gerada por esta redução, a relação entre o recurso a energias renováveis na diminuição da dependência energética nacional, o aumento da qualidade e a eficiência da agricultura? E que também não percebem que tudo isto vai ter impacto no crescimento económico, na geração de empregos e no bem-estar da sociedade? Volto a discordar.

Hábeis serão as empresas que perceberem que a diretiva da informação não financeira é um instrumento para aproximar a linguagem entre os seus departamentos que insistem em viver e comunicar isoladamente. Líderes serão as empresas que entenderem que os fundos de investimento responsável podem ser uma bandeira da comunicação, que vai contribuir, e muito, para aumentar a reputação.

É complexo e difícil, mas não é impossível. Não podemos cruzar os braços e passar a responsabilidade para as próximas gerações. E você, já olhou para a estratégia de investimentos da sua empresa?

 

 

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