
José Partida
Head de Desenvolvimento de Negócios da Repsol Renováveis
A energia eólica offshore é uma tecnologia madura e segura, com mais de 85 GW instalados em todo o mundo. A maioria dos projetos utiliza fundações fixas, alguns ultrapassando os 1.000 MW de capacidade. Já a eólica flutuante conta com 278 MW em operação, em projetos pré-comerciais, incluindo em Portugal o WindFloat Atlantic — parque de 25 MW com a Repsol como acionista.
A eólica fixa conseguiu reduzir substancialmente o seu LCOE (Levelized Cost of Energy), graças às economias de escala: passou de tarifas de cerca de 200 €/MWh no início do milénio para dispensar apoios públicos e celebrar contratos corporativos até 2020, ano em que o setor enfrentou uma forte crise. Esta deveu-se ao aumento de mais de 50% dos custos da cadeia de abastecimento (aço e cobre), à subida dos custos logísticos e das taxas de juro, que penalizam projetos com elevado investimento inicial. Atualmente, há sinais de recuperação, embora com leilões a apresentarem preços mais elevados, adaptando-se às novas condições de mercado.
Em Portugal, a aposta será na tecnologia flutuante face às condições da nossa costa. Mas por que razão uma tecnologia com um LCOE mais elevado do que a eólica terrestre e a solar será relevante na transição energética?
- Se o consumo aumentar ao ritmo previsto para os próximos 10 a 15 anos, impulsionado pela eletrificação e pelos data centers, Portugal precisará de duplicar ou até triplicar a sua capacidade instalada. Este objetivo é dificultado pela elevada percentagem de território protegido (22%) e pelo efeito NIMBY (“Not In My Backyard”).
- A eólica offshore trará maior diversidade à matriz renovável, com um recurso mais estável e constante do que a eólica terrestre e a solar.
- O LCOE deverá cair com os primeiros projetos comerciais e as economias de escala, tal como ocorreu com a eólica offshore fixa.
- O setor exige o apoio dos portos, tanto logístico como industrial, podendo atrair investimento e promover a industrialização do país. Esta cadeia de valor — que inclui a produção de flutuadores, cabos submarinos e serviços de operação e manutenção — pode gerar emprego qualificado e transformar Portugal num exportador de tecnologia e serviços para projetos internacionais.
- As fundações das turbinas atuam como recifes artificiais, favorecendo a biodiversidade e a regeneração dos ecossistemas marinhos.
Um exemplo emblemático é o WindFloat Atlantic, projeto pioneiro que juntou investidores privados e autoridades, com fabrico local de componentes. Foi o primeiro parque eólico offshore semi-submersível do mundo, enfrentando condições reais de operação com ondas superiores a 20 metros e ventos até 139 km/h — dados cruciais para o desenvolvimento das futuras plataformas flutuantes.