
Filipa Pantaleão
Secretária Geral do BCSD Portugal
A sustentabilidade como estratégia
O ano de 2025 confirma uma tendência na Europa: a sustentabilidade deixou definitivamente de ser uma agenda paralela para se transformar num eixo essencial de competitividade empresarial pela lógica “nova” da segurança económica, que se juntou às palavras dos anos anteriores: resiliência, conformidade e materialidade.
As empresas mais avançadas já não tratam estes temas como apêndices reputacionais, mas sim como elementos centrais de gestão: risco, continuidade, performance operacional e valor económico de longo prazo.
Num contexto de maior pressão regulatória, geopolítica e tecnológica, há hoje uma maturidade crescente na forma como o setor empresarial integra clima, natureza, recursos, digitalização e cadeias de valor. O foco desloca-se para aquilo que é material, mensurável e verdadeiramente determinante para a robustez do negócio.
Houve também fatores da economia global que desviaram a atenção (e recursos) para questões a curto prazo. Isto poderá ter levado a que a discussão em torno do “Omnibus” tenha sido interpretada por alguns stakeholders como um abrandamento ou alívio das exigências de reporte. Nada poderia estar mais longe da realidade – é um sinal de alerta!
Omnibus não é um recuo
O Omnibus representa, acima de tudo, uma correção técnica, não um recuo estratégico. Se for lido (erradamente) como redução de ambição, corre-se o risco de comprometer avanços estruturais que a Europa tem feito na última década. E, mais grave ainda, pode induzir as empresas menos preparadas a acreditar numa falsa sensação de simplificação, num momento em que, na verdade, os requisitos de resiliência, segurança económica, ciberproteção e gestão de cadeias críticas se tornam mais apertados.
O verdadeiro risco do Omnibus não é o impacto regulatório, mas sim a narrativa errada que pode gerar.
O setor empresarial não pode cair na tentação de o interpretar como um incentivo à desaceleração. Pelo contrário: é, precisamente, quando há ruído, pressão e incerteza que o foco estratégico mais importa.
A informação necessária para a transformação
Uma colega dizia-me muitas vezes: “Informação não é poder. Poder é o que fazes com essa informação”. Nunca esta afirmação foi tão exata. Acesso a esta informação é o primeiro passo para se poder tomar importantes decisões de gestão, como: em que devo investir para poupar recursos, onde é que os nossos concorrentes são mais eficientes ou eficazes… portanto, deixemo-nos de queixumes sobre o que reportamos ou não e olhemos para os dados para transformar o nosso negócio – e, “by the way”, de forma mais sustentável. Assim, a sustentabilidade tem de ser tratada hoje como um elemento de gestão integrada. A sua ligação direta a riscos físicos, digitais, climáticos, sociais e geopolíticos significa que os conselhos de administração têm cada vez menos espaço para abordagens superficiais.
As empresas estão a ser avaliadas por investidores, reguladores e mercados, não pelo volume de dados que reportam, mas pela coerência das decisões que tomam. As prioridades já não são o reporting pelo reporting, mas sim a competitividade através de:
- Impactos: proteção de infraestruturas, estabilidade das cadeias de valor, inteligência artificial;
- Riscos: cibersegurança, transparência dos riscos, falta de matérias-primas críticas;
- Oportunidades: criação de valor através de inovação, capacidade de antecipação de crises, resiliência das operações.
2026 será um ano decisivo
2026 será um ano crucial para o país. Terminando os fundos do PRR, que têm sido um dos principais motores de desenvolvimento, a sustentabilidade vai consagrar-se como crítica e indispensável para continuar o trabalho desenvolvido, capitalizar estes investimentos e ter competitividade do tecido empresarial. E, nesta lógica, o Omnibus pode servir de lembrete útil para nos focarmos menos no ruído e nos indicadores dispersos e mais naquilo que realmente transforma o negócio – na ação.
Do lado das empresas, a tendência é clara. Apesar do debate político e mediático, o que observamos no terreno é a ausência de recuos significativos. As empresas mais competitivas continuam a aumentar investimentos em sustentabilidade, a reforçar capacidades internas, a trabalhar a governação e a alinhá-la com riscos emergentes. O ritmo não desacelerou, transformou-se. E, para estar na vanguarda desse conhecimento, apostam na formação, trabalho em rede e muito mais.
O Omnibus pode reduzir pressão administrativa, mas não a pressão estratégica. O mundo não ficou menos complexo. As cadeias não ficaram menos vulneráveis. O clima não ficou mais estável. A tecnologia não ficou menos crítica. A geopolítica não ficou mais previsível.
Num ambiente assim, apenas trabalhando de forma colaborativa seremos capazes de garantir a adaptação em tempo record e com resultados de valor acrescentado.