
Maria Sousa Martins
Gestora de Conhecimento e Formação do BCSD Portugal
2026 começa agora: parar, imaginar e escolher o futuro que queremos
Tenho sentido que, em sustentabilidade, estamos muitas vezes presos a um modo de resposta permanente. Responder à legislação, responder às expectativas dos stakeholders, responder a crises reputacionais, responder ao que “aparece” no curto prazo. Esse esforço é necessário, mas manifestamente insuficiente. Sustentabilidade não pode continuar a ser apenas um exercício de resposta: exige imaginação e antecipação.
Que futuro estamos a construir?
O início de um novo ano tem sempre algo de simbólico. Não porque tudo mude no dia 1 de janeiro – não muda –, mas porque força, ainda que por instantes, a uma pausa para refletir. E é exatamente um convite à reflexão que trago hoje: que futuro estamos, de facto, a construir com as decisões que tomamos hoje?
Sem reflexão, não há estratégia – há apenas reação. E decisões reativas raramente constroem o futuro que dizemos querer. Se queremos levar a sustentabilidade a sério, precisamos de a assumir como um exercício de antecipação estratégica: compreender tendências, questionar pressupostos, explorar alternativas e fazer escolhas conscientes entre diferentes futuros possíveis. É neste contexto que entra uma palavra que ainda usamos pouco, mas que acredito que será cada vez mais central nos próximos anos: foresight.
Foresight para lidar com a incerteza
Foresight não é futurologia, nem um exercício de previsão. Não se trata de tentar adivinhar o que vai acontecer, nem de desenhar cenários fechados ou otimistas por defeito. Foresight é uma disciplina estratégica e uma prática de antecipação que ajuda organizações e decisores a lidar com a incerteza de forma mais consciente e responsável.
Em foresight falamos de múltiplos futuros possíveis (aquilo que pode acontecer); de futuros plausíveis (aquilo que é credível que aconteça, tendo em conta tendências, constrangimentos e dinâmicas em curso); e de futuros preferíveis (aqueles que, de forma deliberada, consideramos desejáveis). A distinção é essencial: os futuros preferíveis não acontecem por inércia – exigem escolhas, prioridades e ação intencional no presente.
Foresight ao serviço da sustentabilidade
É precisamente aqui que foresight ganha relevância no contexto da sustentabilidade. Porque sustentabilidade lida, por definição, com o longo prazo, com incerteza, com impactos sistémicos e com decisões que têm efeitos muito para lá do ciclo anual ou do horizonte de reporte. Sem antecipação, a sustentabilidade corre o risco de se reduzir a um exercício técnico, desligado da estratégia e da transformação real.
Foresight cria espaço para perguntas que raramente cabem na agenda do dia a dia: que tendências estruturais estão a moldar o nosso contexto? Que pressupostos estamos a assumir como garantidos, e talvez já não devêssemos? Que escolhas de hoje estão a fechar opções para amanhã? Que futuros estamos a tornar mais prováveis através das decisões que tomamos, ou evitamos tomar?
Mais do que oferecer respostas fechadas, foresight oferece consciência e intencionalidade. Ajuda-nos a navegar a incerteza com mais clareza. E, sobretudo, ajuda-nos a alinhar as decisões do presente com o futuro que ambicionamos construir.
2026 não precisa de mais respostas automáticas. Precisa de espaço para refletir, antecipar e decidir. Num contexto de incerteza, foresight não elimina a complexidade, mas cria linguagem comum, amplia perspetivas e apoia decisões mais robustas, construídas em conjunto.
E, como nunca é demais relembrar John Lennon, imaginar é o primeiro passo para transformar. O futuro não se prevê nem se constrói sozinho. Coconstrói-se no presente, através das escolhas que fazemos, das parcerias que criamos e da liderança que assumimos.
O futuro começa agora.
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