
Nadia Herji
Head for People and Sustainability, NEYA Hotels
A 17 de fevereiro assinala-se o Dia Mundial da Resiliência do Turismo, uma data que, para muitos, pode passar despercebida, mas que para quem conhece o setor por dentro representa muito mais do que um marco simbólico. Fala de capacidade de adaptação, de visão estratégica e, acima de tudo, de responsabilidade. O turismo tem sido posto à prova repetidamente — crises económicas, pandemias, alterações climáticas, instabilidade geopolítica. Mas a verdadeira resiliência não está apenas em sobreviver a estes desafios; está em transformar a forma como operamos para que o futuro seja não apenas possível, mas mais justo, mais sustentável e mais humano. E é precisamente aqui que a sustentabilidade deixa de ser uma tendência e passa a ser uma exigência de integridade.
Costumo dizer que trabalhar no setor do turismo é lidar diariamente com um paradoxo: somos uma indústria que cria experiências memoráveis e liga pessoas ao mundo, mas também uma das que mais contribui para a pressão ambiental global. Não vale a pena suavizar isto. A pegada começa no momento em que o hóspede entra num avião e prolongase até ao último quilowatt consumido num hotel, passando por centenas de fornecedores, transportes, embalagens, refeições e resíduos que sustentam a nossa operação. Fingir que a sustentabilidade é uma nota de rodapé seria, no mínimo, intelectualmente desonesto. No setor da hotelaria, ela é absolutamente central.
A teoria de shared value, de Michael Porter, enquadra bem este desafio. A ideia de que o valor económico deve coexistir com o valor social e ambiental não é romantismo empresarial; é lógica estratégica. No nosso setor, não existe resultado financeiro duradouro se ignorarmos o impacto que geramos. A dupla materialidade torna este ponto ainda mais evidente: tudo aquilo que fazemos afeta o mundo, e o estado do mundo afeta diretamente o futuro das nossas organizações. É um ciclo inevitável — e, para mim, também uma chamada à responsabilidade.
É por esta razão que, numa organização hoteleira moderna, o Departamento de Sustentabilidade não é um luxo nem uma moda — é uma necessidade funcional e estratégica. Exigir que todos os colaboradores consigam integrar, de forma orgânica e sistemática, princípios de sustentabilidade em processos já de si complexos seria desumano e operacionalmente inviável. O departamento existe para complementar, orientar e elevar as operações. É ele que garante certificações, define KPIs robustos, gere resíduos com critério científico, promove a economia circular, forma equipas e, talvez mais importante, impede que se caia na tentação do greenwashing. Enquanto investidor, gestor ou líder, nada me irrita mais do que declarações bonitas que não se materializam em práticas sólidas. Credibilidade é uma moeda valiosa — e difícil de recuperar quando se perde.
Entre os temas que mais me mobilizam está o desperdício alimentar. Não apenas pelos seus impactos ambientais e financeiros, mas pela sua dimensão moral. É habitual ouvir a frase “as sobras podem ser doadas”, e naturalmente que a doação é positiva. Mas convém lembrar que, para existirem sobras, existiu primeiro desperdício — e isso significa recursos, trabalho, tempo e alimentos inutilizados. No nosso setor, comida desperdiçada é dinheiro desperdiçado, mas é também um símbolo de desigualdade num mundo onde, paradoxalmente, ainda há quem não tenha o suficiente para comer. Combater o desperdício exige métricas, processos inteligentes, equipas envolvidas e disciplina operacional. E exige, acima de tudo, consciência coletiva.
Outro ponto incontornável é a cadeia de valor, como reforçado pelo ODS 12b. As empresas hoteleiras não podem limitar-se a verificar o que acontece dentro das suas paredes; devem controlar e responsabilizar-se pelo que compram. Green procurement não é uma expressão “elegante” — é um método de filtragem ética e estratégica. Avaliar fornecedores com base em critérios ESG exige coragem e rigor. E, para mim, essa avaliação deve ir ainda mais fundo: não basta analisar o produto ou o processo; é essencial questionar diretamente a governance. Estão os acionistas dessa empresa alinhados com a sustentabilidade? Como é que isso se prova? Um fornecedor só é verdadeiramente sustentável quando a sua estrutura de decisão também o é.
A sustentabilidade, no entanto, não é apenas ambiental. É também humana. Na NEYA Hotels, o projeto Quarto Solidário ilustra bem esta dimensão: usar os nossos próprios recursos — quartos, equipas, capacidade de acolhimento — para dar resposta a situações sociais urgentes. É um exemplo simples e poderoso de como a hotelaria pode ser agente ativo de transformação. Dentro das equipas, os princípios de diversidade, equidade e inclusão não são meras bandeiras. Está amplamente demonstrado que equipas diversas são mais inovadoras, mais eficazes e mais resilientes. A DEI melhora a tomada de decisão, reforça a cultura interna e aumenta a competitividade. Não é um favor — é uma vantagem estratégica.
Por fim, vale a pena recordar que a sustentabilidade também é um ativo financeiro tangível. Com as exigências da European Banking Authority e o foco crescente dos bancos no aumento do seu Green Asset Ratio, projetos verdadeiramente sustentáveis atraem melhores condições de financiamento. As instituições financeiras procuram parceiros confiáveis, transparentes e alinhados com a transição climática. Quem investe na sustentabilidade investe, simultaneamente, na solidez financeira a longo prazo.
E é aqui que regressamos ao Dia Mundial da Resiliência do Turismo: resiliência não é resistência passiva; é transformação ativa. É a capacidade de olhar para o setor, reconhecer os seus impactos e ter a coragem de fazer diferente. É isto que me move enquanto acionista da NEYA Hotels. Fazemos tudo isto — e muito mais — porque acreditamos que a hotelaria não pode ser apenas “vender por vender”. Tem de ser um motor de impacto positivo, capaz de enfrentar os desafios de frente e contribuir para um turismo mais responsável, mais sólido e mais alinhado com aquilo que o futuro exige de nós.