Este artigo começa com um pedido: antes de continuar oiça por favor esta versão do icónico Sound of Silence, dos Disturbed.
“Hello darkness, my old friend…” — assim começa a letra desta música, composta há mais de meio século e que permanece atual. Em especial, nas empresas. O “som do silêncio” de que fala não é o silêncio da paz, mas o silêncio da solidão, da desconexão, da perturbação não dita e tantas vezes não compreendida. É o silêncio de uma presença ausente. Este eco é familiar a muitos profissionais nos dias de hoje — pressionados por metas agressivas, prazos incompatíveis com o tempo acelerado que vivemos, sobrecarregados emocionalmente, e muitas vezes sem espaço para expressar a sua vulnerabilidade.
Num mundo corporativo que tanto valoriza a performance, a resiliência tornou-se palavra de ordem. Mas resiliência não pode ser confundida com resistência cega. O colaborador que silencia o cansaço, o medo ou a tristeza não é mais produtivo — é apenas alguém a caminhar rapidamente para o colapso.
Vivi uma situação no regresso de três semanas de férias, dois anos depois da pandemia. Chamar férias a três semanas de insónia, de ansiedade e de palpitações, disfarçadas por manhãs no computador, fugazes idas durante o dia à praia para fingir que estava com a família e noites de copos passadas de telemóvel na mão a compor mails é um absurdo. Quando regressei, contei ao meu sócio que a fatura do trabalho excessivo nos dois anos anteriores me tinha finalmente sido enviada, e propus-lhe que déssemos a todos os colaboradores meio dia por mês de folga, para que pudessem ir descansando, para não chegarem às férias esgotados, como eu. Impressionado, respondeu de imediato: “não é meio dia, é um dia inteiro!”. Desde há três anos que as nossas pessoas – o nosso maior ativo – além dos 22 dias de férias têm 10 dias adicionais de descanso remunerado. Dias extra para serem usados mensalmente e que não acumulam, a ideia é mesmo obrigar as pessoas a pararem, ainda que não queiram. Pessoas mentalmente saudáveis contribuem para organizações saudáveis. Além do modelo híbrido, assumido desde então, temos quinzenalmente uma longa reunião com toda a equipa – somos vinte – na qual falamos de todos os clientes de forma aberta, procurando envolver todos em todos os assuntos da empresa e onde falamos sobre desafios e dilemas, mas também sobre sucessos e conquistas. Falar abertamente do que está a correr bem e menos bem e, sem vergonha ou problema, assumir dificuldades e pedir ajuda. Há um oceano de melhorias a introduzir em benefício das nossas pessoas e da nossa organização. Mas há trabalho para fazer, clientes para servir e contas para pagar. Todos sabem isso e os que vêm dos anos pandémicos sabem-no na pele.
O nosso lema corporativo é “acrescentar valor através da comunicação”, mas só podemos fazê-lo reconhecendo e dando valor das nossas pessoas. A ausência de diálogo sobre saúde mental no trabalho tem custos altos: aumento de absentismo, rotatividade e saída de talento, conflitos internos. Acima de tudo, tem um custo humano: pessoas que adoecem, que se desligam emocionalmente, que deixam de encontrar sentido no que fazem. Perdemos todos quando assim é.
É urgente quebrar esse ciclo. As empresas – e não precisam de ser grandes e de ter um enorme músculo financeiro – ganham quando implementam medidas que promovem a saúde mental e o bem-estar. Na minha empresa estamos longe de situações ideais, mas termos consciência da importância de agir é meio caminho andado para alcançarmos as soluções de que precisamos.
Cuidar do bem-estar emocional não é um luxo, é uma necessidade. Não se trata apenas de “evitar crises”, mas de criar ambientes de trabalho onde as pessoas possam ser inteiras — produtivas, sim, mas também humanas.
Porque, como diz a canção, “the words of the prophets are written on the subway walls and tenement halls”. Mais que em manuais de gestão, a sabedoria que precisamos está em saber ver os sinais que os nossos próprios colaboradores nos dão — tantas vezes em silêncio.
Está nas mãos das lideranças ouvir esse silêncio… antes que seja tarde demais.