Ou a sustentabilidade é aqui e agora, ou não é
9 May 2022

Nos últimos dez mil anos, a Humanidade criou civilizações extraordinárias que transformaram profundamente a nossa forma de viver. Tal deveu-se, em grande medida, à estabilidade de temperaturas do Holoceno e à revolução agrícola subsequente, que permitiu à Humanidade aumentar exponencialmente os níveis de produção e riqueza.

Contudo, muitas das civilizações dos últimos dez mil anos extinguiram-se prematuramente. Como defendem autores tão distintos como Jared Diamond (Collapse – How Societies Choose To Fail or Survive, 2004), Alfred Marshall (Tudo o Que é Sólido se Dissolve no Ar, 1982) e Oswald Spengler (The Decline of the West, 1918), uma civilização ou uma cultura são superorganismos, que se renovam, mas que também adoecem e morrem. Em muitos casos, a principal causa de extinção dessas civilizações foi a sobre-exploração dos recursos naturais – sendo a Ilha de Páscoa um dos exemplos mais trágicos e eloquentes –; noutros, foi a instabilidade social que determinou o fim de civilizações fluorescentes.

Adotando como momento zero o aparecimento do Homo Sapiens, 97% da riqueza produzida pela Humanidade foi produzida em apenas 0,15% da sua história, isto é, entre 1750 e 2000. O período desde a Revolução Industrial foi de grande aceleração dos níveis de produção, consumo e riqueza. O PIB per capita aumentou 14 vezes desde 1820, apesar da população mundial ter aumentado quase 8 vezes.

Porém, a enorme expansão da riqueza disponível foi acompanhada de uma enorme aceleração nos desequilíbrios da biosfera. O impacte no planeta da Revolução Industrial foi – está a ser – dramático, ao ponto de já termos entrado no Antropoceno, a sexta era de extinção em massa da história de 550 milhões de anos de vida complexa na Terra. O atual ritmo de extinção de espécies é mil vezes superior ao que era antes da Revolução Industrial.

A década em que vivemos será a derradeira para mitigarmos três desafios críticos para o futuro da Humanidade e da vida na Terra: a emergência climática, a perda de biodiversidade e as crescentes desigualdades sociais. Porém, e apesar da urgência da ação – já reconhecida pela generalidade dos países e dos setores da sociedade –, a presente década também nos tem obrigado a lidar com sérios entraves à agenda da transição para a sustentabilidade – por exemplo, a pandemia Covid-19, a instabilidade nos preços e nas cadeias de valor de bens essenciais, e a turbulência geopolítica, com a invasão da Ucrânia a constituir um sério revés para os três principais mapas de ação para a década: os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da Agenda 2030 das Nações Unidas, o Acordo de Paris sobre o Clima e o Pacto Ecológico Europeu.

Realizou-se recentemente o Liaison Delegate’s Meeting 2022 do WBCSD – de cuja Rede Global o BCSD Portugal faz parte -, um momento de partilha de conhecimento e experiências inspiradoras de empresas e líderes de todo o mundo, com o objetivo de facilitar a cocriação de soluções que ajudem as empresas a acelerar a transição para o paradigma da sustentabilidade. Salientamos o apelo à colaboração estreita e regular entre as diversas empresas que compõem as diversas cadeias de valor, desde já nos setores alimentar, energia e construção, de modo a se conseguir acelerar a ação pela natureza e o combate à desigualdade, e a consolidar o respeito pelos direitos humanos e o investimento em inovação. As conclusões da sessão final alertam para a necessidade de ação imediata, para a importância do combate às desigualdades, e para se considerarem as emissões de scope 3 e a importância das finanças sustentáveis.

Em suma, temos um longo e complexo caminho a percorrer, mas não há alternativa se quisermos assegurar boas condições de vida na Terra no futuro.  Valha-nos que a expetativa da generalidade dos stakeholders das empresas – investidores, clientes, reguladores e trabalhadores – continua empenhada em acelerar a transição para o paradigma da sustentabilidade, apesar das dificuldades conjunturais. É um enorme sinal de esperança as empresas mais competitivas do século XXI já não quererem ser as melhores do mundo, mas sim as melhores para o mundo, terem abandonado o lema “porquê este compromisso?” e adotado o lema “como vamos operacionalizar este compromisso?”.

João Wengorovius Meneses

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