Principais conclusões dos desafios da década 2020-30: a década da ação
2 Feb 2022

A Conferência Anual do BCSD Portugal debruçou-se sobre os desafios da década 2020-30, a chamada década da ação. Foram dois dias de debates profundos e estratégicos com alguns dos maiores especialistas dentro dos 4P (Planeta, Pessoas, Proveito e Propósito) e algumas das maiores empresas do panorama nacional e internacional. Aproveitando este início de novo ano, partilhamos o resumo destes desafios e as principais conclusões dessas discussões. Caminhamos juntos nesta década pela sustentabilidade.

 

1º Dia – 24 de novembro 2021

 

A sessão de abertura contou com a participação do Ministro do Ambiente e da Ação Climática, João Pedro Matos Fernandes.

Principais conclusões:

  • A economia e a sustentabilidade não são faces opostas da mesma moeda. A economia tem de continuar a crescer, promovendo o investimento na neutralidade carbónica e na regeneração dos recursos, garantindo assim um crescimento dentro dos limites planetários.
  • A solução para os problemas ambientais que enfrentamos não pode passar pela perda de bem-estar Humano. É absolutamente essencial que consigamos recuperar a qualidade ambiental do planeta sem perder as condições de bem-estar que conquistamos até ao momento.

Posteriormente, o Presidente do BCSD Portugal, João Castello Branco, reforçou que:

  • A par da transformação digital, a transição para a sustentabilidade será o principal vetor de transformação das economias, dos modelos de negócios, das sociedades e dos estilos de vida do próximo século.
  • Precisamos de transitar para um modelo de desenvolvimento compatível com as exigências prementes da sociedade e do planeta. As empresas precisam de se reinventar e de estar no centro das soluções, comprometendo-se com a sustentabilidade e encontrando novos modelos de negócio e de produção sustentáveis.

Ainda pela manhã, a sessão keynote speaker foi dada pelo Presidente do World Business Council for Sustainable Development, Peter Bakker:

  • A sustentabilidade está a tornar-se uma tendência do momento. Contudo, a visão que prevalece, não é da sustentabilidade como filantropia ou responsabilidade corporativa, mas da sustentabilidade como aspeto-chave da estratégia corporativa e de governance. Os shareholders, investidores e financiadores têm como preocupação central os riscos de uma não transição para o modelo sustentável.
  • É necessária uma mudança na visão dos líderes empresariais para a construção de sistemas resilientes, de uma mentalidade regenerativa e para a reinvenção do capitalismo – o capitalismo precisa de ser redirecionado para a verdadeira criação de valor, orientado para o propósito corporativo e para a resolução dos problemas relevantes para a sociedade.

 

PEOPLE : DESAFIOS DA DIVERSIDADE E DA INCLUSÃO SOCIAL

A humanidade nunca foi tão rica, mas também nunca foi tão desigual na distribuição da riqueza. Existe ainda um longo caminho a percorrer no domínio da promoção da diversidade, para que as sociedades sejam espaços de inclusão, promotoras de bem-estar e que valorizem a diferença. A construção de ambientes que acolham a enorme pluralidade de perfis sociais e culturais é um enorme desafio, do género à orientação sexual, da religião à cor da pele, da capacidade física à idade ao género, do estado civil às crenças e ideologias individuais.

A sessão começou com o contributo do Diretor de Desenvolvimento e Cooperação, Jorge Moreira da Silva, como keynote speaker. Desta sessão fez ainda parte uma mesa-redonda com os seguintes convidados:

  • Jorge Moreira da Silva, Diretor de Desenvolvimento e Cooperação, OCDE
  • Lars-Erik Fridolfsson , People & Culture Leader Sustainabilty Inter IKEA
  • Margarida Couto, Partner Grupo Vieira de Almeida e Presidente GRACE- Empresas Responsáveis
  • Moderadora: Catarina Marques Rodrigues, Jornalista RTP

 

Principais contributos do Diretor de Desenvolvimento e Cooperação na OCDE, Jorge Moreira da Silva:

  • A situação pandémica e a subsequente queda da economia agravaram a desigualdade no mundo, seja ao nível da pobreza, do desemprego ou de género. Em 30 anos, esta foi a primeira vez que aumentou o número de pessoas a viver em situação de pobreza extrema.
  • As discrepâncias entre países ricos e pobres foram também agravadas. No caso dos países mais pobres, para além da falta de vacinas, continuam a ter falta de meios e de profissionais para prestar cuidados de saúde de suporte à população. Neste período de recuperação económica pós-pandemia, os pacotes de estímulo financeiro e económico fornecidos foram notoriamente insuficientes para combater estes acrescidos desafios. A título de exemplo, os países mais ricos mobilizaram internamente um valor económico duzentas vezes mais elevado do que foram capazes de mobilizar para apoiar os países mais pobres.

 

Principais contributos do People & Culture Leader Sustainabilty da Inter IKEA, Lars-Erik Fridolfsson:

  • Numa empresa promotora de diversidade existem desafios acrescidos, mas são também vários os benefícios. As diferentes perspetivas e experiências de vida dos colaboradores fomentam a criatividade no desenvolvimento de novos produtos.
  • No desenvolvimento de uma estratégia de diversidade e inclusão é necessário, em primeiro lugar, identificar quais são os valores da empresa e compreender se os líderes fomentam a diversidade e a inclusão no seio da empresa; em segundo lugar, perceber se os colaboradores compreendem o conceito de diversidade e inclusão e se estão confortáveis com elas e por fim, entender se a estrutura e os processos da empresa suportam um modo de trabalho inclusivo. Antes de trazer diversidade para dentro da empresa, esta tem de estar preparada incluir devidamente as pessoas.

 

Principais contributos da Partner do Grupo Vieira de Almeida e Presidente do GRACE- Empresas Responsáveis, Margarida Couto:

  • Assistimos a uma crise de liderança que está enraizada em problemas de cultura corporativa. A maioria dos líderes foram ensinados de acordo com a doutrina de Milton Friedman, segundo a qual a única responsabilidade social das empresas é criar valor para o shareholder. Portanto, a mudança para organizações mais equitativas e inclusivas será lenta e difícil.
  • Na implementação de estratégias que visam a igualdade de género não existe um problema de oferta: mais de 50% da população são mulheres e não existe um problema de qualificações. Contudo, o mesmo não acontece com a comunidade LGBT+, refugiados e pessoas com deficiência, pelo que pode ser mais complicado incluí-los nas empresas. Para estes grupos, além do problema da oferta, acresce ainda o preconceito inconsciente, que deixa os recrutadores desconfortáveis.

 

PLANET : RESPEITAR OS LIMITES PLANETÁRIOS

A pressão dos nossos atuais padrões de produção e níveis de consumo não coloca apenas em causa os recursos naturais, põe em causa outros equilíbrios e limites da biosfera que também são essenciais para o futuro do planeta e da humanidade. Por exemplo, limitar o aquecimento da Terra a 1,5ºC é um desafio urgente e global, de modo a evitar eventos climáticos extremos cada vez mais violentos, perda de habitat, diminuição de biodiversidade, acidificação dos oceanos e o degelo em larga escala. Todos estes fenómenos têm não só impactos sérios ao nível da biosfera, mas também profundas consequências sociais e económicas.

A sessão teve início com a apresentação do Professor Catedrático de Biogeografia Universidade de Évora, Miguel Araújo. Desta sessão fez ainda parte uma mesa-redonda com os seguintes intervenientes:

  • Miguel Araújo, Professor Catedrático de Biogeografia Universidade de Évora
  • Nuno Lacasta, Presidente da Agência Portuguesa do Ambiente (APA)
  • Eva Zabey, Executive Director, Business for Nature
  • Moderadora: Carla Tomás, Jornalista Expresso

 

Principais contributos do Professor Catedrático de Biogeografia Universidade de Évora, Miguel Araújo:

  • Os dados referentes à pegada de carbono per capita mostram que em Portugal esta é relativamente baixa o que, por sua vez, dá a entender que estamos num bom caminho. Contudo, quando observamos a pegada carbónica associada às importações, percebemos que a razão pela qual não emitimos grandes quantidades de CO2 é porque importamos de outros países. Muitos dos produtos importados são originários da China, onde as preocupações ambientais são significativamente menores. Porém, este problema poderia ser combatido, com regulação que imputasse no preço de entrada na União Europeia as externalidades resultantes da produção.
  • Enquanto noutros países, a maioria das áreas protegidas são detidas por entidades públicas ou por grandes empresas do setor privado, em Portugal, a maioria são detidas por pessoas individuais. Uma vez que as áreas protegidas são inequivocamente um bem público – na medida em que nos providenciam com um enorme valor não transacionável, como ar limpo, proteção contra a erosão, entre outros – é fundamental que, para conservação da biodiversidade, haja um esforço do Estado para comprar progressivamente estes terrenos. Porém, também o setor privado pode sentir-se responsável pela construção de um mundo melhor, comprometendo-se com a compra e preservação da biodiversidade dos terrenos, com um modelo de negócio associado e regulação estatal.

 

Principais contributos do Presidente da Agência Portuguesa do Ambiente (APA), Nuno Lacasta:

  • Em Portugal falhamos dramaticamente em proteger a biodiversidade porque não temos a tradição de fazer um planeamento estratégico do desenvolvimento territorial, como acontece noutros países. A forma como nos temos posicionado no país é totalmente esquizofrénica: construímos casas, estradas e empreendimentos turísticos em sítios que fragmentam habitats.
  • Há uma oportunidade no desenvolvimento de projetos que aproveitem as sinergias que existem entre a proteção da natureza e da biodiversidade e o setor agrícola. As atividades desenvolvidas pelos agricultores já são, em alguns casos, potenciadoras da proteção dos rios e cursos de água. Podem ainda ser adotadas outras práticas que utilizem os recursos agrícolas para a proteção da natureza.

 

Principais contributos da Executive Director no Business for Nature, Eva Zabey:

  • As empresas têm impacto, mas também dependem da natureza. Pelo menos metade do PIB mundial está em risco devido à perda de natureza. Neste sentido, o impacto que as empresas podem ter se apostarem na proteção da natureza é cada vez mais evidente. Para tal, as empresas precisam de avaliar, comprometer, agir e ser porta-voz:
  • Avaliar: compreender todos os impactos materiais na natureza e agir da forma mais adequada, considerando toda a cadeia de valor;
  • Comprometer: estabelecer metas ousadas e baseadas na ciência;
  • Agir: reduzir o impacte negativo ao máximo evitável e trabalhar na transformação para um modelo regenerativo.
  • Ser porta-voz: tornar-se um exemplo reconhecido na comunidade, influenciando a alteração das políticas públicas e inspirando outras empresas a adotarem o mesmo caminho
  • Embora tenhamos consciência de todo o valor que a natureza nos providencia, este valor não está a ser devidamente contabilizado no sistema financeiro. Caso contrário, não haveria indecisão na escolha dos produtos: o produto mais barato seria também o mais sustentável.

 

A sessão da tarde começou com a apresentação da keynote speaker Fundadora & CEO da Disrupt Design e The UnSchool, Leyla Acaroglu.

Principais conclusões:

  • A sustentabilidade é a principal oportunidade de inovação do nosso tempo. Precisamos de alterar a forma como agregamos valor à economia, reconfigurar a forma como a economia funciona através da mudança da proposta de valor dos bens e serviços, e da transição para uma economia mais colaborativa e de partilha, onde os consumidores possam suprir as suas necessidades sem a obrigatoriedade de possuir um produto.
  • Apresentação de um modelo que sistematize e ajude a perceber onde pode ocorrer a mudança:
  1. Operacional: diz respeito aos impactos correntes que a empresa tem, como energia, água, resíduos, infraestrutura, entre outros.
  2. Produto: refere-se à cadeia de abastecimento, materiais, embalagem, uso e fim de vida. Compreende a avaliação do ciclo de vida de todos os estágios de vida do produto e não só dos materiais e produção.
  3. Experiência: ficarmos entusiasmados com o futuro – em vez de assustados – e estarmos cientes que somos todos participantes na construção da economia, somos todos cidadãos-designers do futuro.

 

PROFIT: NOVOS MODELOS DE NEGÓCIO PARA A SUSTENTABILIDADE

Um dos debates mais importantes, criativos e intensos dos últimos tempos é o da reinvenção do capitalismo e do conceito de empresa – a sua célula base.  Desde o início deste século, tivemos já duas sérias crises económicas globais e o nosso modelo de desenvolvimento atual tem vindo a dar cada vez mais sinais de exaustão e fragilidade, isto é, de insustentabilidade.

A sessão teve início com a apresentação do Global Impact Manager da Too Good to Go, Philippe Schuler. Desta sessão fez ainda parte uma mesa-redonda com os seguintes intervenientes:

  • Philippe Schuler, Global Impact Manager, Too Good to Go
  • Harry Verhaar, Head of Public & Government Affairs, Signify
  • Leyla Acaroglu, Fundadora & CEO, Disrupt Design e The UnSchool
  • Moderador: André Veríssimo, Jornalista ECO

 

Principais contributos do Global Impact Manager da Too Good to Go, Philippe Schuler:

  • Desperdiçamos mais de 1/3 de todos os alimentos que produzimos no mundo. Este desperdício é responsável por 10% das emissões globais de GEE. Se, por um lado, estamos a desperdiçar comida, por outro, todos os dias, existem 820 milhões de pessoas a passar fome no mundo. Além disso, combater o desperdício alimentar pode resolver os maiores problemas que enfrentamos na atualidade, como as alterações climáticas, o crescimento populacional, a pressão no sistema agrícola e a escassez de recursos naturais.
  • A melhor ferramenta que temos em mãos para promover a mudança é a comunicação. Esta deve ser inspiradora (chamar à atenção do problema e sensibilizar de forma positiva e holística) e empoderar (tornar as ações de combate ao problema mais fáceis e tangíveis).

 

Principais contributos do Head of Public & Government Affairs da Signify, Harry Verhaar:

  • Os modelos de negócio adotados pelas empresas podem mudar por via da transformação em serviços e da cobrança pela utilização (em vez de pela posse do produto). Assim, deixa de ser vantajoso vender, constantemente, mais produtos e a lógica por detrás do sistema também se inverte: deixa de prevalecer a lógica “more is better” (mais é melhor) e passa a prevalecer a lógica “better is best” (melhor é melhor).
  • É fundamental fazer o procurement dos materiais baseado em informações sobre o impacto de todo o ciclo de vida do produto. Devido à velocidade a que precisamos que esta transformação ocorra, torna-se necessário haver políticas e regulamentação que mude os requisitos de eficiência e inclua estas preocupações na tomada de decisão dos materiais a utilizar, na fase de design do produto.

 

Principais contributos da Fundadora & CEO da Disrupt Design e The UnSchool, Leyla Acaroglu:

  • “Guilt is not an emotion that is going to drive change. What is going to drive change is excitement. It´s going to be about the possibility, not the losses.” (A culpa não é uma emoção que vai impulsionar a mudança. O que vai impulsionar a mudança é o entusiasmo. Vai ser sobre a possibilidade, não sobre as perdas.)
  • Uma das propostas-chave da economia circular é revalorizar os produtos atualmente desperdiçados, em vez de gastar quantias avultadas de dinheiro na gestão de resíduos. As empresas começam a internalizar as externalidades que colocaram sobre a sociedade nos últimos 50 anos e assim, começam a criar um negócio em torno da gestão dos resíduos, em vez da gestão de recursos.

 

PURPOSE: O PAPEL DOS VALORES E DE UMA BOA GOVERNANCE

O P de Propósito exige mais do que a integração dos fatores ESG na gestão das empresas. Exige, também, a revisão da sua missão e visão, isto é, uma reavaliação do seu papel social. A transição de uma shareholder economy para uma stakeholder economy exige que as empresas sejam capazes de ser veículos de geração de riqueza para os seus acionistas, mas também de geração de outros tipos de valor para um grupo mais alargado de stakeholders. Ora, a geração de valor social e ambiental exige uma noção de propósito.

 

A sessão começou com o contributo do Fundador da Winston Eco-Strategies, Andrew Winston. Desta sessão fez ainda parte uma mesa-redonda com os seguintes intervenientes:

  • Andrew Winston, Fundador, Winston Eco-Strategies
  • Marcello Palazzi, Global Ambassador, B Corp
  • Thomas Kolster, Founder, GoodvertisingAgency
  • Moderadora: Margarida Vaqueiro Lopes, Jornalista EXAME/Visão

 

Principais contributos do Fundador da Winston Eco-Strategies, Andrew Winston,:

  • Em 1997, um grupo de CEO´s das principais empresas multinacionais emitiu uma declaração onde assumiam a necessidade de operar de maneira diferente da que tinha adotado até então, com vista na criação de valor, a longo prazo, para todos os stakeholders. Este acontecimento marca uma nova era do capitalismo, com foco no propósito corporativo. Hoje em dia, as empresas sentem impelidas a pronunciar-se publicamente quanto ao racismo, aos direitos da comunidade LGBT e à democracia.
  • Não basta as empresas serem “menos más”, os negócios têm de ser lucrativos através da resolução dos problemas do mundo. Criar valor para todos os stakeholders deve ser o objetivo-chave de qualquer empresa pois isso potencia a redução de custos, diminui os riscos, impulsiona a inovação, atrai e retém talento, além de manter a empresa relevante. Para tal, são necessários líderes com coragem, propósito, capacidade de inspirar, humanidade, humildade e que fomentem a colaboração.

 

Principais contributos do Global Ambassador da B Corp, Marcello Palazzi:

  • O propósito corporativo é um assunto delicado: uma empresa pode ter um propósito corporativo e ainda assim adotar práticas de greenwashing. O propósito precisa ser examinado com profundidade: De quem é o propósito? Do CEO, dos colaboradores, da sociedade como um todo? É fundamental encontrar o equilíbrio certo entre o propósito interno e o propósito externo, pois, afinal, o negócio tem de servir sociedade.
  • O capitalismo tem de seguir um caminho diferente, pois tem causado muitos danos às pessoas e ao planeta. A Europa é o melhor lugar para a reinvenção deste sistema devido ao equilíbrio entre empresas, públicas e privadas, e ao poder do empreendedorismo associado ao amor pelas pessoas e pelo planeta.

 

Principais contributos do Founder da GoodvertisingAgency, Thomas Kolster:

  • Existe uma narrativa generalizada de que serão as empresas a salvar o mundo, contudo, apenas temos assistido a aumentos nas condições de degradação ambiental e de injustiça social. Esta lacuna entre a narrativa heroica e autocentrada das empresas e os seus impactos reais é um verdadeiro perigo. A liderança empresarial de que, efetivamente, precisamos passa por dar um passo atrás e compreender quais são os principais fatores que nos podem ajudar a adotar comportamentos mais sustentáveis e a lutar contra o preconceito.
  • Atravessamos uma crise de comunicação e confiança. O greenwashing arruina a confiança que as pessoas têm nas empresas. Um dos principais desafios é, de facto, comunicar da maneira certa pois há uma lacuna cada vez maior entre a narrativa das empresas e os impactos reais, o que conduz a uma maior descrença das pessoas.

 

De seguida, decorreu a apresentação do Fundador & Chief Pollinator da Volans Ventures, John Elkington.

Principais tópicos abordados:

  • A transição está a acontecer e estamos a entrar num período em que os acontecimentos começam a ocorrer a ritmos extraordinariamente rápidos e em direções que não entendemos na totalidade, seguindo a trajetória de uma curva exponencial – por muito tempo nada parece estar a movimentar-se até que alcançamos um ponto de inflexão e aí muitas coisas acontecem num grau excecional. Os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável são, em si, objetivos exponenciais.
  • Embora, em 1994, John Elkington tenha revolucionado o pensamento sobre sustentabilidade com o conceito de triple bottom line (social, económico e ambiental), hoje acredita que este modelo está a ser mal utilizado. Nas deliberações de alto nível, nos negócios, nos investimentos e nas instituições e governos, a voz da natureza, da agenda social e do futuro (de longo prazo) devem ser ouvidas de forma crescente. É necessário incluir os mais jovens nesta mesa onde acontecem as deliberações.

 

De modo a encerrar o dia, o Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, salientou:

  • A transparência, hoje, já não é facultativa. Não é uma opção, mas sim um dever, uma exigência de envolvimento, de cooperação e de maximização dos efeitos positivos e minimização – sempre que possível de anulação – dos efeitos negativos das atividades.
  • Apelo às empresas para que reforcem o envolvimento positivo dos clientes, dos colaboradores, dos acionistas, da comunidade em geral, no país, na europa e no planeta. Apostem nas pessoas, no planeta como um todo, naquele que é o permanente respeito pela sua preservação e regeneração, com propósito, aposta, coragem e determinação. Após referidos os 4´ps que orientaram o dia de conferências, acrescentou ainda mais dois: resultado positivo (5ºP) para Portugal (6ºP).

 

2º Dia – 25 de novembro 2021

 

A sessão de abertura contou com a participação da Secretária de Estado do Ambiente, Inês Costa. Principais conclusões:

  • Como nenhum país consegue, até à data, cumprir com as necessidades básicas dos seus cidadãos ao nível da gestão sustentável dos recursos, podemos considerar que todos os países são países em desenvolvimento.
  • A extração e consumo de materiais cresce acima da taxa de crescimento do PIB e estamos a braços com uma crise conjetural na energia, nos materiais e nos recursos humanos. Esta crise poderá rapidamente progredir para uma crise estrutural, se não formos capazes de repensar o modelo económico sobre o qual assentamos o desenvolvimento das nossas sociedades durante os últimos 100 anos. A economia não pode ser alavancada através de estímulos ao consumo, não só porque o nosso sistema natural está exausto, mas também porque já ultrapassamos o limite da “economia do bastante” (com uma criação equilibrada e distribuída de riqueza) para uma “economia do mais” (de acumulação de riqueza).

 

AMBIÇÃO 2030: A AGENDA COMUM DAS EMPRESAS PELA SUSTENTABILIDADE (patrocinado por NTT DATA Portugal & Brisa)

O mundo enfrenta três desafios críticos: emergência climática, perda da natureza e a crescente desigualdade. São necessárias transformações sistémicas para enfrentar os desafios e as empresas têm um papel muito importante a desempenhar na transformação da  produção e consumo, na utilização de energia, nas soluções da vivência quotidiana, no trabalho e transportes e nos materiais e seu desperdício. Estas requerem, contudo, colaboração, ambição e urgência na decisão.

A sessão teve início com uma breve apresentação do Representante do Comité de Trabalho da Carta de Princípios do BCSD Portugal, Eduardo Moura. Desta sessão fez ainda parte uma mesa-redonda com os seguintes intervenientes:

  • Tiago Barroso, CEO, NTT DATA Portugal
  • António Pires de Lima, CEO, Brisa
  • Ondina Afonso, Director of Quality & Research Department, Chair of Continente Producers Club, SONAE MC
  • José Reis Costa, Presidente da Administração, Grupo ProCME
  • Moderador: Eduardo Moura, Representante do Comité de Trabalho da Carta de Princípios do BCSD Portugal

Principais tópicos abordados:

  • Apresentação da Plataforma da Jornada 2030 da Carta de Princípios do BCSD Portugal, que constitui o instrumento que ajudará as empresas portuguesas a alinhar e demonstrar o seu contributo para os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), das Nações Unidas, a estratégia da União Europeia (EU) e de Portugal.
  • A digitalização é fundamental para a construção de um futuro sustentável pois tem um papel fulcral na transição para uma mobilidade sustentável e segura, para o desenvolvimento de modelos de negócios sustentáveis e para que ocorram melhorias na eficiência dos processos. Além disso, também permite fazer o rastreamento de informações sobre os produtos, o que pode influenciar os consumidores a escolher produtos mais sustentáveis.
  • Nos relatórios de risco globais do World Economic Forum, houve um fator que apareceu pela primeira vez este ano – o risco de desigualdade digital. Se entendermos que a transição digital é um acelerador para o desenvolvimento sustentável, não pode, por antítese, ser causa de uma maior desigualdade no mundo.

 

DESCARBONIZAR A ECONOMIA (patrocinado por EDP & SECIL)

De acordo com o mais recente relatório do Painel Intergovernamental sobre Alterações Climáticas (IPCC), se o atual ritmo de emissões de Gases com Efeito de Estufa (GEE) se mantiver, o limite de 1,5ºC, fixado pelo Acordo de Paris em 2015, será ultrapassado já em 2040. Limitar o aquecimento da Terra a 1,5⁰C implica reduzir para metade as emissões globais até 2030, o que obriga a acelerar bastante o processo de descarbonização em todo o mundo rumo à neutralidade carbónica até 2050.

Desta sessão fez parte uma mesa-redonda com os seguintes intervenientes:

  • Alberto Pineda, Managing Director, SBTi
  • Giulia Carbone, Director, Natural Climate Solutions Alliance, WBCSD
  • Carlos Abreu, Administrador, Secil
  • Miguel Setas, Executive Board Member, EDP
  • Moderador: Pedro Barata, Partner, Get2C

 

Principais tópicos abordados:

  • A COP26 foi um sucesso devido ao envolvimento, sem precedentes, das empresas, que efetuaram compromissos de adaptação e mitigação às alterações climáticas e devido aos acordos conseguidos a nível do metano, do carvão e da deflorestação. Porém, é necessário tornar estes compromissos acionáveis.
  • A expressão Net Zero (neutralidade carbónica) remete para um conceito físico e científico concreto que precisa de ser alcançado para travar o aumento médio da temperatura global. Este conceito tem sido empregue globalmente em diferentes situações, em algumas delas incorretamente, o que gerou uma névoa de confusão e de falta de credibilidade na sua definição. É necessária uma uniformização da linguagem e uma regulação do conceito que evite o greenwashing e certifique o fundamento dos claims.
  • As diversas crises que que enfrentamos (crise climática, crise de biodiversidade, entre outras) necessitam de uma abordagem holística, que consiga ser veículo da nossa atenção e alvo de financiamento, para alavancar soluções. As nature based solutions – mais concretamente as nature climate solutions – são uma ferramenta importante de mitigação das alterações climáticas. Por outro lado, podem ainda ajudar na preservação da biodiversidade e contribuir com benefícios económicos e sociais para a população.

 

ATUAR PELA NATUREZA  (patrocinado por The Navigator Company & Sonae)

A Natureza está longe de ser ilimitada e estudos científicos recentes alertam que o planeta está a perder biodiversidade dos seus ecossistemas naturais. Os serviços que estes proporcionam, que são essenciais para vida no planeta estão a degradar-se a um ritmo sem precedentes, aproximando-se rapidamente de um ponto sem retorno. Para travar esta situação, é necessário o envolvimento de diferentes atores da sociedade, incluindo as empresas, que, simultaneamente, dependem e impactam a natureza, independentemente da sua dimensão, localização e setor de atividade.

Desta sessão fez parte uma mesa-redonda com os seguintes intervenientes:

  • Alain Vidal, Technical Director, Science Based Targets Network
  • Marc Palahí, Director, European Forest Institute, Leading The Prince of Wales’ Circular Bioeconomy Alliance
  • Henrique Pereira dos Santos, Arquiteto Paisagista, Técnico, ICNF
  • João Lé, Membro da Conselho Executivo, The Navigator Company
  • Moderador: Pedro Beja, Vice-Diretor do Centro de Investigação em Biodiversidade e Recursos Genéticos (CIBIO); Cátedra EDP Biodiversidade

Principais tópicos abordados:

  • O desequilíbrio climático e a quebra na biodiversidade são consequências diferentes do mesmo problema: o sistema económico vigente. Este sistema está altamente dependente dos recursos fósseis e do crescimento económico a todo o custo. Por acréscimo, este sistema falhou em valorizar o capital mais importante para a saúde e bem-estar Humano: a natureza. Chegamos a um ponto de inflexão em que temos de repensar o funcionamento da economia de modo a reescrever o nosso futuro.
  • O motor do novo paradigma económico não pode ser o consumo, mas sim a circular bioeconomy (bioeconomia circular), ou seja, a economia tem de prosperar em conjunto com a natureza. A circular bioeconomy remete para a restauração e gestão sustentável dos sistemas biológicos, que providencia soluções de base biológica para a descarbonização da economia e para a produção de energia e alimentos, em sinergia com os serviços de ecossistemas, promovendo a biodiversidade e a inovação.
  • Muitas vezes, as empresas não estão cientes das ligações que existem entre a sua atividade e a biodiversidade. Porém, para construir ou manter um ecossistema resiliente, as empresas têm de se comprometer fortemente com a biodiversidade: (1) parando com destruição da natureza, (2) reduzindo o seu impacte na natureza e (3) restaurando, regenerando e transformando.

 

INOVAR PARA A CIRCULARIDADE  (patrocinado por Jerónimo Martins)

A economia circular está a crescer nas agendas das empresas e dos Estados um pouco por todo o mundo. Contudo, a mudança para modelos de negócio verdadeiramente circulares, projetados sem resíduos nos sistemas, parece estar a evoluir lentamente. A necessidade da transição para uma economia circular é evidente e exige a dissociação do consumo de recursos e do desempenho económico, nomeadamente através da partilha de informação, da existência de políticas adequadas, de metas de circularidade estabelecidas com base na ciência, da colaboração nas cadeias de valor e de novos modelos de negócio circulares.

Desta sessão fez parte uma mesa-redonda com os seguintes intervenientes:

  • Cristina Rocha, Investigadora, LNEG
  • Ricardo Neto, Presidente, ERP Portugal e Novo Verde
  • Patrícia Gonçalves, Administradora Executiva, Grupo Monte
  • Moderador: Fernando Ventura, Head of Efficiency and Innovation Environmental Projects, Jerónimo Martins

 

Principais tópicos abordados:

  • Este período de grande atividade relativamente à economia circular deve-se ao encarecimento do preço das matérias-primas virgens, à extensão das matérias-primas consideradas críticas (muito empregues nas tecnologias de informação e comunicação) e ao contributo, cada vez mais evidente, da economia circular para o combate às alterações climáticas. Além disso, a economia circular constitui uma grande oportunidade na criação de novos empregos e no estímulo da economia por via da utilização de materiais secundários e do prolongamento do tempo de vida dos produtos.
  • Principais desafios na transição para uma economia circular:
    • perceção generalizada de que produtos feitos com matérias-primas recicladas têm um valor inferior;
    • ser conveniente para o consumidor;
    • preço mais elevado das matérias-primas recicladas em conjunto com a crescente instabilidade do preço das matérias-primas virgens (que cria uma instabilidade na procura de matérias-primas recicladas;
    • desconhecimento generalizado das empresas relativamente às ferramentas de economia circular que permitem colocar esta transição em prática;
    • dificuldades diversas na triagem e na reciclagem dos resíduos;
    • entraves legislativos que resultam de processos bastante demorados e burocráticos.
  • O maior potencial de transformação para a sustentabilidade dos produtos está na fase do design. Cerca de 80% do desempenho ambiental do produto é determinado pelo design pois é nessa fase que os materiais são escolhidos e que é determinada a forma de utilização do produto, a sua durabilidade, a possibilidade de reutilização, a sua capacidade de reparação e de reciclagem.

 

VIVER AS CIDADES (patrocinado por BNP Paribas & GALP)

De acordo com as Nações Unidas, metade da população mundial vive em cidades, prevendo-se que este número aumente para cerca de 2/3 em 2050. Cerca de 76% das emissões de gases com efeito de estufa (GEE) são geradas em áreas urbanas onde vive a grande maioria da população europeia. Para promover o desenvolvimento sustentável das cidades, é necessária a colaboração de todos os stakeholders, bem como a mobilização de financiamento privado a par dos fundos públicos disponíveis.

Desta sessão fez parte uma mesa-redonda com os seguintes intervenientes:

  • Marcel Hendriks, Environmental Service Leader for Spain & Portugal, ARCADIS
  • Carlos Costa Pina, Administrador e COO Corporate, Galp
  • Roberto Fonseca, CEO, BNP Paribas Arval Portugal
  • Moderadora: Marième Rochi, Head of Company Engagement Projects & Partnerships, BNP Paribas CIB

 

Principais tópicos abordados:

  • O aumento do número de pessoas a viver em espaços urbanos traz novos desafios às cidades do futuro ao nível da gestão de resíduos, da economia circular, do tratamento das águas, do congestionamento das vias públicas, entre outros. A mobilidade é um dos aspetos-chave a ter em consideração pois influencia o congestionamento, o tempo perdido em deslocações casa-trabalho, a poluição do ar e a saúde da população.
  • As empresas têm a oportunidade de contribuir significantemente para o futuro das cidades através da gestão da sua frota. As empresas têm de, em vez de uma gestão da frota, fazer uma gestão da mobilidade, isto é, pensar como é que os seus colaboradores se desloquem de um ponto A para um ponto B sem carro, promovendo novas maneiras de mobilidade, como scooters e bicicletas.
  • O sistema energético das cidades do futuro terá de suportar uma mobilidade elétrica, interconectada, inteligente e partilhada e uma maior ecoeficiência dos edifícios. A UE anunciou que os edifícios poderão vir a ser sujeitos a licenças de carbono como outros setores de atividades acolhidos pelo EU Emissions Trading System (EU ETS). Isto deverá incentivar a construção de edifícios mais eficientes do ponto de vista energético.

 

FINANCIAR A SUSTENTABILIDADE (patrocinado por Grupo Ageas Portugal)

Na jornada para uma economia mais verde e mais inclusiva é necessária a reorientação dos capitais privados para investimentos mais sustentáveis. Para os investidores, isto significa integrar os critérios ESG (Environment, Social and Governance) nas suas decisões, resultando em investimentos de longo prazo em atividades sustentáveis. Para as empresas, significa trabalhar na integração de práticas sustentáveis, que garantam um impacto positivo do ponto de vista ambiental e social.

Desta sessão fez parte uma mesa-redonda com os seguintes intervenientes:

  • Steven Braekeveldt, CEO, Grupo Ageas Portugal
  • António Miguel, Founder and Managing Partner, Maze Impact
  • Margarida Sarmento, Sustainable Investments Manager, Grupo Ageas Portugal
  • Moderadora: Sofia Santos, Sustainability Champion in Chief at Systemic, Certified ESG Risk Analyst

 

Principais tópicos abordados:

  • A transparência já não é facultativa e os critérios ESG são o futuro do investimento. Quando a regulação relativa às sustaibable finance estiver em vigor, o sistema financeiro e os consumidores vão exigir que as empresas sejam sustentáveis e as que não o forem, deixarão de ser relevantes para a sociedade.
  • Os principais desafios do investimento sustentável: medidas regulatórias inexistentes ou ineficientes em vários países, falta de homogeneidade regulatória, grande dispersão de ferramentas de medição dos critérios ESG e acesso dificultado a informações relativas ao desempenho das empresas.
  • Para um investimento, mais do que fazer uma análise do risco financeiro é fundamental analisar o potencial impacto da solução (impact investing).

 

Por fim, como forma de encerrar a conferência, foi proporcionado um momento de celebração dos 20 anos de atividade do BCSD Portugal, com a participação de figuras decisivas deste percurso, como ex-presidentes e ex-secretários gerais do BCSD Portugal.

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