Rumo a 2030
18 Jan 2021

O Concelho Empresarial para o Desenvolvimento Sustentável – ou apenas BCSD Portugal, na sua sigla em inglês – nasceu há precisamente 20 anos, pela mão de um grupo de empresários portugueses, convictos de que a sustentabilidade iria ser um tema chave para a competitividade das empresas no século XXI. O primeiro presidente do BCSD Portugal foi Belmiro de Azevedo.

Nessa altura, em 2001, o maior vetor de transformação dos modelos de negócio das empresas e das sociedades era o novo mundo digital. Desde então, a transformação digital foi exponencial, em todos os setores, geografias e aspetos da nossa vida. Hoje, sobretudo nos países desenvolvidos, já ninguém se imagina a viver sem internet ou sem acesso a smartphones.

A essa revolução digital, que começou no início do século, junta-se agora uma outra, de igual ou maior magnitude: a da sustentabilidade. Hoje, não faltam sinais inequívocos de que a sustentabilidade será o maior vetor de transformação dos negócios e dos nossos estilos de vida nas próximas décadas. Se assim não for, as próximas gerações terão uma qualidade de vida muito inferior aos standards que alcançámos no século XX.

No início da Revolução Industrial (1820), a população mundial somava mil milhões de pessoas e o PIB per capita era $712. Apenas 200 anos depois, a população mundial aumentou mais de 7 vezes (em 2019, ascendia a 7,62 mil milhões de pessoas) e o PIB per capita mais de 13 vezes (em 2019, ascendia a $9.663). A combinação de novas fontes de energia (os combustíveis fósseis) e novas tecnologias (o motor de explosão), a par da evolução científica, da transição para regimes políticos assentes em democracias liberais e da adoção do capitalismo como modelo económico, não só aumentou a riqueza disponível a nível mundial, como permitiu a criação de mecanismos de proteção social pública (o aumento da riqueza permitiu passar a cobrar mais impostos).
Contudo, a grande aceleração económica e os extraordinários ganhos de bem-estar material, a que a Revolução Industrial deu origem, tiveram um preço: duzentos anos depois, persistem bolsas de pobreza e exclusão, as sociedade ficaram mais desiguais e, sobretudo, a biosfera está hoje no limite da sua capacidade de carga.

A preocupação com a sustentabilidade surge no final do século XX, na sequência de vários alertas e relatórios da comunidade científica e das Nações Unidas, entre os quais as publicações “The Limits to Growth” (1972), da autoria do casal Meadows, e “Our Common Future” (1987), da autoria da Comissão Brundtland. Todos esse relatórios eram muito claros e consistentes no alerta acerca do inevitável colapso da biosfera (a vários níveis) e de que sociedades altamente injustas e desiguais serão sempre demasiado instáveis e imprevisíveis.

No que respeita às desigualdades sociais, simplesmente não é viável que as 26 pessoas mais ricas do mundo possuam uma riqueza equivalente a metade da população mundial (quase 4 mil milhões de pessoas), nem que o PIB per capita do país mais rico (Qatar – $117.000) seja 177 vezes superior ao do país mais pobre (República Centro-Africana – $661).

Já no que diz respeito aos desequilíbrios na biosfera, eles estão, sobretudo, relacionados com os atuais níveis de exploração dos recursos naturais, de emissões de gases com efeito de estufa, de poluição terrestre, marinha e atmosférica, e de geração de lixos e resíduos.

No que toca aos recursos naturais, nunca o Overshoot Day do planeta, ou seja, o dia a partir do qual começamos a consumir recursos a crédito das gerações futuras aconteceu tão cedo. Em 2020, em Portugal ocorreu no dia 25 de maio. Ou seja, seriam precisos mais de dois planetas Terra para que o nosso modelo de desenvolvimento e estilos de vida fossem sustentáveis. Obviamente, dada a finitude da maior parte do capital natural, estamos há décadas a viver a crédito das gerações futuras, isto é, a comprometer a capacidade das futuras gerações beneficiarem da mesma qualidade de vida de que nós (ainda) usufruímos.

Não podemos esquecer que todos os bens de grande consumo (casas, carros, telemóveis, fármacos, alimentos, roupa, etc.) integram diretamente capital natural (minérios, minerais, combustíveis fósseis e biomassa), os quais são finitos (quando acabarem, acabam para sempre!) ou têm ciclos longos de renovação. Dado que metade do PIB mundial depende diretamente de recursos naturais, não será de estranhar que, em 2019, a Humanidade consumiu 100 mil milhões de toneladas de recursos naturais – tendo sido circular em apenas 8,6%! O ritmo atual de perda de biodiversidade, de extinção de espécies, é de tal ordem elevado que já entrámos na sexta era de extinção em massa do planeta. Nos cerca de 500 milhões de anos de vida na Terra, houve 5 extinções em massa, a última das quais foi a que extinguiu os dinossauros e cerca de 70% da vida na Terra, há 66 milhões de anos. Há, neste momento, um milhão de espécies em risco de extinção e os corais – esse santuário de beleza e vida! – estão em risco de desaparecer para sempre até 2050. Mas há uma diferença fundamental entre a sexta era de extinção em massa – denominada de Antropoceno – e as cinco anteriores: desta vez, e pela primeira vez, a causa é a própria Humanidade!

Obviamente, quanto mais predatória e desequilibrada for a nossa relação com os ecossistemas e a biosfera, mais crises socioeconómicas e fenómenos pandémicos teremos de enfrentar no futuro. Relativamente ao risco de pandemias, calcula-se que haja cerca de 32 mil coronavírus na natureza, que a qualquer momento poderão dar origem a zoonoses – muitas das quais poderão ser bem piores do que a Covid-19!

Relativamente à emissão de gases com efeito de estufa para a atmosfera, a Humanidade acaba de atingir um recorde de 3 milhões de anos, altura em que a temperatura terrestre era 3-4º C superior à atual e o nível do mar estava 10-20 metros acima do nível atual. Temos vindo a bater recordes de emissão de gases com efeito de estufa ano após ano. Só nos últimos 40 anos, emitimos mais dióxido de carbono para a atmosfera do que nos 200 anos anteriores.

Para conseguirmos cumprir o Acordo de Paris e limitar o aumento da temperatura global a 1,5ºC face à era pré-industrial no planeta, teremos de conseguir diminuir as emissões de gases com efeito de estufa cerca de 7,5% ao ano até 2030. Trata-se da diminuição que ocorreu em 2020, devido ao confinamento global, mas que teria de ser cumulativa, ao longo de 10 anos. A questão que se coloca é, então, a de saber como diminuir as emissões de gases com efeito de estufa para a atmosfera de forma radical, ao longo de dez anos, sem confinar a economia e as nossas vidas.

Por fim, no que toca à produção de lixos e resíduos e à poluição, em 2019 a Humanidade produziu 2 mil milhões de toneladas de lixo, 12% dos quais plásticos. A ilha de plástico flutuante no pacífico já tem uma área equivalente à da Alemanha, França e Espanha juntas! E com o aumento da população mundial e do número de pessoas da classe média, segundo o Banco Mundial a produção de lixo poderá aumentar 70% até 2050. Já no que diz respeito à poluição, responsável por diversos fenómenos preocupantes, entre os quais, o desgaste dos solos, a acidificação dos oceanos e a degradação da saúde dos sere vivos, em 2019 provocou 5 milhões de mortes diretas (até meados de janeiro de 2021, a Covid-19 provocou 2 milhões de mortes).

Mas há boas notícias, também. Por um lado, fomos capazes conter a expansão do buraco na camada de ozono (que nos protege das radiações ultravioletas), porque tomámos medidas de proibição de CFC nos aerossóis na década de 1980. Paralelamente, nos últimos 30 anos, a União Europeia conseguiu diminuir as emissões de gases com efeito de estufa em 23% e aumentar o PIB em 61%. Não é suficiente, mas não deixa de ser um sinal de esperança de que é possível um modelo de desenvolvimento (mais) sustentável. Por outro lado, sabermos o que fazer também é uma boa notícia: temos o Acordo de Paris sobre o clima e os 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, da Agenda 2030 das Nações Unidas, para nos guiar até 2030.

Não será por falta de recursos que a transição para a sustentabilidade não acontece. Nunca o mundo produziu tanta riqueza e teve tanta liquidez disponível. É, sobretudo, uma questão de fazer as opções certas. A título de exemplo, o valor do comércio global anual (legal) de armas ($1,8 biliões) quase daria para alcançarmos os 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, até 2030.

Para além da abundância de recurso económico-financeiros disponíveis, a revolução digital (ou da indústria 4.0) deverá também ser enabler e aceleradora da transição para a sustentabilidade – um bom exemplo de interseção entre ambas são os modelos de economia da partilha. Porém, a urgência de redesenharmos os nossos modelos de desenvolvimento, agravada pelo aumento esperado da população até 2050, não nos permite esperar por milagres tecnológicos para agir.

Desde a sua génese que o BCSD Portugal faz parte da Rede Global do World Business Council for Sustainable Development (WBCSD). Criado há 26 anos, o WBCSD é um dos compromissos que resulta da Cimeira da Terra das Nações Unidas, que teve lugar no do Rio de Janeiro, em 1992. Foi nessa Cimeira que a sustentabilidade se tornou um tema mediático à escala planetária e em que, pela primeira vez, se assumiu que as empresa têm de ser uma variável fundamental na equação do desenvolvimento sustentável. Atualmente, o WBCSD tem escritórios em Genebra, Nova Iorque, Nova Deli, Singapura, Changai e Tóquio, e presença em 65 países, entre os quais Portugal. As suas empresas membro, na sua larga maioria multinacionais, representam cerca de 10% do PIB mundial.

Já o BCSD Portugal conta, atualmente, com 111 membros, que representam mais de 10% do PIB nacional. A nossa missão é ajudar os nossos membros na sua jornada para a sustentabilidade. Simplificando, ajudamos as empresas a compreender e a incorporar melhor os fatores ESG nas suas cadeias de valor e modelos de negócios, isto é, os fatores ambientais, sociais e de bom governance. Uma leitura da Carta de Princípios do BCSD Portugal, um referencial que pode ser assinada por qualquer empresa, membro ou não, permitirá compreender melhor o que são os fatores ESG para a sustentabilidade dos modelos de negócio das empresas.

Nos últimos 20 anos, desde a criação do BCSD Portugal, a sustentabilidade passou de iniciativas de green washing, responsabilidade social ou de apenas “nice to have” para “must have”, transformadora das estratégias e cadeias de valor das empresas. Hoje, a generalidade das empresas compreende que há, pelo menos, seis vantagens em ser sustentável:
• Diminuir a intensidade de uso de recursos (matérias-primas, energia, água, etc.) permite diminuir os gastos e, assim, melhorar os resultados;
Gerir o risco da atividade de forma mais eficaz – por exemplo, o risco de rutura ou aumento de preço das matérias-primas (devido à sua escassez crescente), o risco reputacional (por mau comportamento ambiental ou social), ou o risco de falhas no compliance legal (que poderá dar origem a multas ou a outras penalidades);
Aumentar a competitividade face aos concorrentes e a fidelização dos clientes, já que a sustentabilidade é, cada vez mais, um fator de diferenciação positiva para as novas gerações de consumidores, que pretendem fazer do consumo um ato de cidadania;
Aumentar a atratividade da empresa para os seus colaboradores, que cada vez mais desejam trabalhar em projetos com propósito, o que permite atrair e reter melhor talento;
Diminuir o custo do capital, já que os investidores entendem, cada vez mais, que as empresas com melhor performance ESG são mais resilientes e competitivas, o que faz com que as empresas menos sustentáveis tenham de pagar um prémio de risco, que será cada vez maior (os índices bolsistas já têm evidências claras desta tendência);
• Melhorar as relação e gerar confiança (e licença para operar) junto da generalidade dos stakeholders, incluindo as diversas comunidades em que a empresa se insere;
Ter acesso a oportunidade de investimento e de negócio, que serão cada vez mais expressivas – só o European Green Deal irá investir mais de um bilião de euros até 2030, para além de que o valor investido por fundos de private equity e de capital de risco, entre outros, é cada vez mais expressivo anos após ano;

Em suma, nos últimos 20 anos, a sustentabilidade passou a ser uma exigência da generalidade dos stakeholders da empresa, nomeadamente, dos seus clientes, investidores, reguladores e trabalhadores.

Em 2021, o BCSD Portugal continuará a dinamizar os seus seis Grupos de Trabalho temáticos atuais, bem como o seu programa de eventos e de formação. Estaremos, também, particularmente atentos a cinco iniciativas além-fronteiras: A presidência portuguesa do Conselho da União Europeia, a implementação progressiva dos 10 eixos de ação do European Green Deal, a Conferência da ONU sobre Oceanos (que terá lugar em Lisboa), a COP 15 sobre a Diversidade Biológica (que terá lugar em Kunming, China), e a COP 26 sobre o Clima (que terá lugar em Glasgow, UK). É fundamental que da COP 15 sobre a Diversidade Biológica resulte um acordo internacional para a proteção da biosfera e da biodiversidade, semelhante ao Acordo de Paris para o clima, o qual deveria incluir um mecanismo de remuneração dos serviços de ecossistemas a nível global. Já da COP 26 sobre o clima, seria muito importante que finalmente resultasse um preço global para os gases com efeito de estufa. Em 2019, os 45 Prémio Nobel da Economia vivos assinaram um manifesto a pedir urgência neste mecanismo.

O BCSD Portugal celebra os seus 20 anos convicto de que a Humanidade tem apenas a presente década para adaptar os seus modelos de desenvolvimento, estilos de vida e cadeias de valor das empresas às exigências da sustentabilidade ambiental e social. Para tal, há premissas da ciência económica a precisar de ser revistas – por exemplo, é fundamental passar a privilegiar o longo prazo nas análises e decisões, assumir que as externalidades sociais e ambientais têm de ser consideradas centralidades de qualquer modelo de desenvolvimento, e que não importa medir apenas níveis de rendimento e consumo, mas sim dimensões e variáveis mais abrangentes, tais como o bem-estar, a qualidade de vida e a felicidade.

Há meia dúzia anos, conheci um astronauta americano que, no início da década de 1970, foi à Lua numa das missões Apolo. Ao olhar o clarão azul que é a Terra vista do espaço, ao se comover com essa imagem de magnitude e fragilidade infinitas, decidiu que a sua missão de vida seria criar uma coligação global que desenhasse um plano para a Terra com um horizonte de 250 anos. Não sei se estaremos preparados para esse horizonte de análise, mas é certo que temos apenas dez anos para que em 2050 e em 2100 o planeta continue a ser uma casa acolhedora para a Humanidade. O BCSD Portugal cá estará para ajudar as empresas nessa jornada, com o forte desejo de que daqui a 10 anos possamos celebrar os nossos 30 e a concretização dos 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável. Tudo faremos para que assim seja. Desde já, obrigado às empresas que nos têm acompanhado e que nos acompanharão nessa missão!

João Wengorovius Meneses
Secretário-geral do BCSD Portugal

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